O esporte pode produzir vitórias que vão muito além do pódio. Armando Badá reflete sobre formação, inclusão, pertencimento e oportunidades capazes de transformar trajetórias dentro e fora das pistas.
Da primeira aula ao alto rendimento, Armando Badá propõe um olhar sobre aquilo que o pódio não consegue medir: pertencimento, oportunidade, formação, autonomia e transformação de trajetórias por meio do esporte.
Antes da medalha existe uma caminhada. E, para muita gente, simplesmente ter a oportunidade de começar já representa uma conquista.
Por Armando Resende de Melo — Armando Badá
Esta matéria integra a série especial SOBRE VENCER! — Skate e sociedade, da Central do Skate. Uma sequência de reflexões sobre vitória, derrota, competição, formação, ética, mérito, caráter, reconhecimento e aquilo que o esporte revela — dentro e fora das pistas.
O que define uma vitória?
Para muita gente, a resposta surge de forma quase imediata:
A medalha no peito.
O troféu erguido.
O topo do pódio.
O reconhecimento depois de anos de dedicação e treinos.
Tudo isso é vitória.
Mas não é toda a vitória.
Longe dos refletores das grandes competições existe outra dimensão do ato de vencer — menos visível, muitas vezes sem fotografia, sem premiação e sem anúncio no sistema de som.
É uma vitória construída muito antes do campeonato.
Nas escolinhas.
Nos projetos sociais.
Nas pistas públicas.
Nas associações.
Nos grupos comunitários.
No trabalho cotidiano de professores, instrutores, voluntários, famílias e pessoas que criam condições para que uma criança simplesmente tenha a possibilidade de começar.
Porque, antes de formar um campeão, é preciso tornar possível a existência do praticante.
E, em muitos lugares, esse já é um trabalho extraordinário.
Existe uma parte da formação esportiva que raramente aparece nos resultados oficiais.
É quando alguém chega pela primeira vez.
Às vezes sem equipamento.
Sem experiência.
Sem saber exatamente como aquele ambiente funciona.
Talvez vindo de uma realidade familiar difícil, de limitações econômicas importantes ou de um território no qual as oportunidades disponíveis são poucas.
É nesse momento que o esporte pode deixar de ser apenas uma atividade.
Pode tornar-se um lugar.
Um ponto de encontro.
Uma rotina.
Uma referência.
Uma possibilidade de pertencimento.
Nos projetos que trabalham diretamente com crianças e adolescentes em contextos de vulnerabilidade, professores e instrutores sabem que a aula muitas vezes começa antes mesmo de alguém colocar os pés sobre o skate.
Começa no acolhimento.
Na escuta.
Na construção de confiança.
Na organização de regras.
Na convivência.
No compromisso de voltar na semana seguinte.
E, algumas vezes, também em necessidades extremamente concretas:
água.
alimentação.
equipamento.
transporte.
proteção.
orientação.
presença.
Nada disso diminui a importância da técnica.
Ao contrário.
Cria as condições para que a aprendizagem possa acontecer.
Antes de ensinar alguém a vencer uma competição, muitas vezes é necessário construir um ambiente no qual essa pessoa descubra que existe um lugar para ela.
O esporte não resolve sozinho os problemas de uma comunidade.
Também não substitui família, escola, políticas públicas, assistência social ou oportunidades de trabalho.
Esperar que ele faça tudo isso seria atribuir ao esporte uma responsabilidade que não lhe pertence.
Mas seria igualmente equivocado ignorar aquilo que ele pode fazer quando existe um projeto sério, contínuo e bem orientado.
Ele pode criar vínculos.
Pode estabelecer referências adultas positivas.
Pode reunir pessoas que talvez jamais se encontrassem em outros ambientes.
Pode ensinar compromisso, cooperação, responsabilidade e convivência.
Pode permitir que uma criança descubra capacidades que ainda não conhecia em si mesma.
E pode abrir portas.
No skate isso se torna especialmente visível.
Uma pista pública é capaz de reunir diferentes idades, origens sociais, repertórios, estilos e níveis técnicos em torno de uma experiência comum.
Quem chega observa.
Depois tenta.
Cai.
Levanta.
Pergunta.
Recebe uma dica.
Tenta novamente.
Pouco a pouco, começa a fazer parte daquele espaço.
Essa experiência pode parecer pequena para quem observa de fora.
Para quem nunca teve muitos lugares aos quais pertencer, ela pode significar muito.
É também nesses ambientes que surgem talentos.
O olhar atento de um professor ou instrutor percebe rapidamente quando determinada criança demonstra facilidade incomum de aprendizagem, coordenação, criatividade, coragem, leitura espacial ou capacidade de lidar com desafios.
Então outra porta pode se abrir.
A criança que começou frequentando um projeto passa a treinar com maior regularidade.
Participa de um primeiro evento.
Viaja para outra cidade.
Conhece outras pistas.
Encontra atletas que até então conhecia somente por vídeos.
Descobre que existe um circuito.
Uma categoria.
Um campeonato.
Uma equipe.
Talvez uma carreira.
Alguns seguirão por esse caminho.
Passarão pelo desenvolvimento técnico, pelas competições regionais e nacionais e, eventualmente, pelo alto rendimento.
Alguns poderão conquistar grandes resultados.
Outros talvez cheguem até o esporte profissional.
E isso precisa ser celebrado.
Um projeto de formação que ajuda alguém a desenvolver plenamente um talento esportivo também está cumprindo uma de suas funções.
Mas existe um erro que não podemos cometer:
Quem acompanha crianças e adolescentes de projetos sociais conhece situações que dificilmente aparecem nas súmulas dos campeonatos.
Para alguns, a primeira competição também será:
a primeira viagem.
A primeira noite fora do próprio bairro.
A primeira vez em outra cidade.
A primeira vez encontrando pessoas de realidades completamente diferentes.
A primeira experiência dentro de uma estrutura esportiva organizada.
Talvez seja também a primeira vez em que percebam que podem ocupar aquele espaço em condições de igualdade com qualquer outro competidor.
Nesse contexto, chegar ao campeonato possui um significado que a classificação final não consegue explicar.
Naturalmente, todos querem competir bem.
Todos querem evoluir.
E, quando existe preparação para isso, todos deveriam entrar na pista querendo produzir seu melhor resultado.
Não precisamos diminuir a competição para defender a formação humana.
Querer ganhar faz parte do esporte.
O problema aparece quando começamos a acreditar que somente ganhar torna aquela experiência válida.
Um jovem pode terminar em décimo, vigésimo ou último lugar e voltar para casa carregando algo que nenhum resultado consegue registrar:
a ampliação de sua própria ideia de mundo.
Agora sabe onde pode chegar.
Sabe que existem outras cidades.
Outros atletas.
Outras pistas.
Outras possibilidades.
Talvez volte para casa querendo treinar mais.
Talvez volte querendo estudar.
Talvez descubra uma profissão.
Talvez decida organizar alguma coisa no próprio bairro.
Talvez simplesmente compreenda que seu horizonte é maior do que imaginava.
Isso também é vitória.
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes para qualquer projeto de formação esportiva.
O que aconteceu com aqueles que não chegaram ao alto rendimento?
Porque serão muitos.
E isso é absolutamente normal.
O esporte profissional necessariamente comporta uma parcela pequena dos milhões de pessoas que praticam esporte.
Então, se considerarmos bem-sucedido apenas aquele aluno que se tornou campeão ou profissional, condenaremos quase todo projeto esportivo ao fracasso.
A medida precisa ser outra.
Aquela criança continuou estudando?
Aprendeu a conviver?
Construiu vínculos?
Desenvolveu autonomia?
Descobriu interesses?
Aprendeu a assumir compromissos?
Encontrou possibilidades profissionais?
Passou a cuidar melhor de si?
Conseguiu participar de uma comunidade?
Tornou-se capaz de construir seus próprios caminhos?
Talvez tenha seguido no skate.
Talvez não.
Pode ter se tornado professor.
Mecânico.
Médica.
Pedreiro.
Empresária.
Artista.
Motorista.
Instrutora.
Comerciante.
Advogado.
Educadora.
Ou qualquer outra coisa que tenha escolhido construir para a própria vida.
Nenhuma dessas trajetórias representa uma derrota por não terminar sobre um pódio.
Muito pelo contrário.
Um projeto esportivo não precisa produzir apenas atletas. Ele pode ajudar a produzir possibilidades.
Existe um cuidado necessário nesta discussão.
Valorizar a dimensão social do esporte não significa diminuir a importância do desempenho.
Um campeonato existe para identificar desempenhos.
Um atleta de alto rendimento treina para competir.
E quem entra em uma competição precisa compreender que existe classificação, regra, julgamento, vitória e derrota.
O primeiro lugar possui valor.
A medalha possui valor.
O título possui valor.
Eles representam trabalho, preparação, talento, disciplina e capacidade de executar sob pressão.
Precisamos apenas compreender que eles representam uma dimensão da vitória, não todas elas.
O mesmo projeto capaz de acolher alguém que está simplesmente aprendendo a permanecer sobre o skate deve ser capaz de reconhecer e desenvolver aquele que demonstra potencial para alcançar níveis extraordinários de desempenho.
Formação social e excelência esportiva não são adversárias.
Quando o trabalho é bem realizado, podem fazer parte do mesmo processo.
Existe ainda outro personagem quase invisível nessa história.
O professor.
O instrutor.
O voluntário.
O treinador da base.
Quem trabalha durante meses para que uma criança consiga permanecer em uma atividade talvez nunca apareça na fotografia de uma grande vitória.
Muitas vezes estará longe quando aquele antigo aluno conquistar alguma coisa importante.
Em alguns casos, talvez nem saiba o que aconteceu anos depois.
Mas deixou uma parte daquele caminho construída.
É difícil medir o valor de alguém que oferece uma referência no momento exato em que outra pessoa precisava dela.
Que empresta um skate.
Que consegue uma inscrição.
Que encontra uma passagem.
Que conversa com uma família.
Que explica uma regra.
Que percebe um talento.
Que também percebe uma dificuldade.
Que cobra quando precisa cobrar.
Que acolhe quando precisa acolher.
Que simplesmente continua aparecendo.
Essa permanência também educa.
E talvez algumas das maiores vitórias produzidas pelo esporte jamais tragam o nome de quem ajudou a construí-las.
A vitória, portanto, não deveria ser compreendida apenas como um evento localizado no final de um campeonato.
Ela pode estar distribuída por toda a trajetória.
No primeiro dia em que alguém entrou em uma pista.
Na primeira queda enfrentada.
No primeiro equipamento recebido.
Na primeira amizade construída.
Na primeira viagem.
Na primeira competição.
Na primeira derrota.
No primeiro pódio.
Na conclusão dos estudos.
Na descoberta de uma profissão.
Na decisão de retornar um dia à própria comunidade para ajudar quem está começando.
Algumas dessas pessoas conquistarão medalhas.
Outras construirão suas vitórias em lugares completamente diferentes.
As duas histórias importam.
O placar mostra quem teve o melhor desempenho naquele campeonato.
Mas existem conquistas para as quais ainda não inventamos placar.
Não existe ranking de pertencimento.
Não existe medalha por ampliar horizontes.
Não existe troféu por descobrir possibilidades onde antes parecia não haver nenhuma.
E talvez seja justamente por isso que precisamos aprender a reconhecê-las.
O pódio registra uma conquista.
A trajetória revela o alcance de uma vitória.
Porque, quando o esporte é bem conduzido, ele pode fazer muito mais do que selecionar campeões.
Pode ensinar.
Pode aproximar.
Pode abrir portas.
Pode revelar talentos.
Pode ampliar horizontes.
Pode oferecer caminhos.
E, algumas vezes, o jovem que um dia chegou a uma pista procurando apenas alguma coisa para fazer volta anos depois trazendo aquilo que recebeu:
oportunidade para quem está chegando.
Quando isso acontece, a vitória já não pertence apenas a uma pessoa.
Ela começa a circular.
E talvez seja justamente aí que o esporte alcance uma de suas formas mais bonitas de vencer.
* * *
“Sobre Vencer!” é uma série especial da Central do Skate dedicada a discutir aquilo que existe por trás da vitória aparente: competição, derrota, mérito, ética, formação, pressão, caráter, responsabilidade, reconhecimento, legado e convivência.
Porque o skate também é uma maneira de observar a sociedade.
E a maneira como aprendemos a ganhar — e a perder — diz muito sobre a maneira como escolhemos viver.
A abordagem desta matéria dialoga com referências internacionais sobre esporte, juventude, educação, inclusão, desenvolvimento e formação:
UNESCO — International Charter of Physical Education, Physical Activity and Sport: reconhece que práticas esportivas adequadamente organizadas podem contribuir para bem-estar, desenvolvimento de habilidades, vínculos comunitários, pertencimento, inclusão e desenvolvimento social.
UNESCO — Fit for Life: iniciativa internacional que relaciona esporte e educação a resultados em saúde, inclusão, igualdade, desenvolvimento de competências socioemocionais e fortalecimento de jovens.
UNESCO — Youth and Sports: apresenta o esporte como instrumento que pode contribuir para objetivos de desenvolvimento social, educação, saúde, inclusão e redução de desigualdades.
UNESCO — Promoting Values of Sport through Curriculum: aborda valores esportivos como respeito, responsabilidade, criatividade, pensamento crítico, inclusão e coesão social.
Central do Skate
Cultura Skateboard, Educação e Formação Esportiva
Série Especial: SOBRE VENCER! — Skate e sociedade
Matéria: Além do Pódio: O Verdadeiro Significado da Vitória no Esporte e na Vida
Autoria: Armando Resende de Melo — Armando Badá
Skatista, Instrutor Sênior da ABC do Skate Brasil e fundador do Projeto Skarte — Aracaju/SE
Editoria: Cultura Skateboard | Educação | Formação Esportiva | Inclusão | Projetos Sociais | Sociedade
Pesquisa, organização editorial e redação final: AG5 — Agência de Conteúdo
Curadoria editorial: AG5 — Central do Skate
Publicação: Central do Skate & ABC do Skate Brasil
Tema: Vitória | Formação | Projetos Sociais | Juventude | Oportunidade | Esporte | Pertencimento | Desenvolvimento
Abordagem: Cultura Skateboard Integrativa | Formação Humana | Desenvolvimento Esportivo | Inclusão | Responsabilidade Pedagógica