Manobras difíceis não falham só por pressão: muitas quebram por falta de padrão técnico. Entenda como preparação, execução, finalização e interfase ajudam skatistas e técnicos a transformar acertos ocasionais em consistência competitiva.
Seu treinador, seus técnicos, ainda não conseguem ajudar de forma objetiva?
Fique tranquilo.
Consistência, constância e domínio técnico, mesmo em manobras com índice baixo de acerto, têm solução. Mas essa solução não aparece quando o treino se limita a repetir a manobra no cansaço, no grito, na sorte ou na esperança de que “uma hora vai”.
Existe uma diferença enorme entre acertar uma manobra e “standarizar” uma manobra.
Algumas manobras são mais difíceis de acertar pela primeira vez. Mas são mais fáceis de tê-las na base. Um 540°, por exemplo, pode levar muito tempo até acontecer. Exige coragem nas primeiras aterrissagens, rotação, eixo, tempo, comprometimento e uma construção técnica evolutiva, sequencial. E, depois que entra de verdade na base do skatista, o índice de erro passa a ser relativamente baixo. O atleta raramente perde aquele 540° quando ele já está bem incorporado.
Com outras manobras acontece o contrário.
Flip Indy, flips com grabs de maior grau, flips sem grab, variações mais finas, entradas complexas, manobras com muitas camadas de execução. O skatista já acertou muitas e muitas vezes. Já filmou. Já comemorou. Já mostrou em treino. Já colocou em algumas voltas. Mas, mesmo assim, ela continua instável. Continua com índice baixo. Continua falhando justamente quando mais precisa aparecer.
E isso não acontece apenas com iniciantes. Acontece muito com skatistas de alto rendimento.
A questão é que certas manobras não quebram por falta de talento. Quebram porque não foram standarizadas.
Na Metodologia A da ABC do Skate Brasil, a manobra precisa ser compreendida em quatro grandes etapas: preparação, execução, finalização e interfase.
A preparação é a entrada da manobra, o gesto preponderante: base, velocidade, linha, eixo corporal, olhar, tempo, intenção, grau de agachamento e posicionamento dos segmentos corporais.
Se a entrada varia demais, a manobra já começa contaminada antes mesmo de acontecer.
A execução é o gestual técnico central preponderante: impulso, encaixe, rotação, coordenação, controle do corpo e posição do skate, tempo de resposta e precisão do movimento fino por camadas de execução.
É onde muita gente olha, mas nem sempre entende tudo que está acontecendo.
A finalização é o modo como o skatista resolve a manobra: aterrissagem, desencaixe da borda, troca dos centros de gravidade, retomada da posição de base, absorção do impacto, equilíbrio instantâneo baseado no ângulo das superfícies, saída de planos e preparação para a continuidade.
Acertar caindo torto, atrasado ou sem controle não é o mesmo que dominar. Às vezes parece bonito, soa como superação, mas não é. A superação vem antes do momento de se apresentar: respeito ao público, à equipe que você representa, a você mesmo. É dedicar-se mais longe dos holofotes e entregar o seu melhor quando você está sendo avaliado.
E a interfase talvez seja uma das partes mais negligenciadas: é a transição entre uma etapa e outra. É o “entre”. O espaço invisível onde a linha muitas vezes se perde.
Entre a preparação e a sua última manobra.
Entre a última manobra e a próxima decisão crítica da volta.
Aqui é a fase da continuidade, efetiva, do dito "flow" do “Dog Bowl”. Ela não pode ser negligenciada.
O erro mais comum é o skatista ter uma ou duas etapas fortes e duas ou três etapas instáveis.
Ele prepara bem, mas executa atrasado, com receio, com muita força, velocidade, ou falta de.
Executa forte, mas finaliza antes ou depois, desequilibrado, com pouca contorção ou muita, sem ajustar os segmentos corporais.
Finaliza de pé, mas sem o devido controle dos centros de gravidade.
Acerta dezenas de vezes no treino, mas não sustenta quando o arousal sobe na hora do "valendo".
Repete a manobra, mas cada tentativa nasce de um jeito diferente. Não atinge o estilo próprio; quando standariza com o melhor estilo possível, vai além.
Por isso, a pergunta técnica não pode ser apenas: “acertou ou errou?”
A pergunta correta é: qual etapa está consistente, qual etapa está oscilando e qual etapa está contaminando a manobra inteira?
Standarizar é fazer a manobra deixar de ser um acerto ocasional e virar um padrão técnico confiável.
Não é engessar estilo. Não é robotizar o skatista. Não é transformar skate em laboratório frio. É exatamente o contrário: é dar ao atleta mais liberdade, porque quanto mais domínio ele tem sobre os rudimentos, mais espaço sobra para estilo, criatividade, coragem e decisão.
A técnica avançada de rudimentos da ABC do Skate Brasil trata a standarização de manobras com várias camadas de execução de forma técnica e aprofundada, na fase certa, dentro do ciclo evolutivo adequado.
Todo esse detalhamento faz parte do Curso de Formação de Técnicos — Módulo III da ABC do Skate Brasil, onde a manobra deixa de ser vista apenas como resultado e passa a ser compreendida como processo, construção, diagnóstico e desenvolvimento técnico real.
No skate de alto rendimento, o problema não é saber fazer.
É saber respeitar, com qualidade, tudo o que você representa, além de suas brincadeiras infantis, quando a volta, o corpo, a pista, o tempo e a pressão mais exigem; quando você está usufruindo de uma estrutura privilegiada, sonhada por muitos e disponível para muito poucos; enquanto milhares de pessoas que jamais chegaram nem perto dessa infraestrutura de que você está dispondo assistem à sua performance, sendo representadas por você.
Não é o seu quintal, com seus amigos e seus privilégios.
É a Cultura Skateboard!
Material integrante do Sistema Atlântico — Treinamento de Treinadores: Terminologia e Práxis no Alto Rendimento, Central do Skate / Cinco Continentes Editora, com uso interno para treinadores.
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Este conteúdo compõe e apoia o Curso de Formação de Técnicos e Treinadores (Módulo III) da ABC do Skate Brasil.
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