Skate na escola tradicional não se consolida com “projeto bonito”. Se conquista com método. Conduta, segurança, didática. Transformar desconfiança em integração real. Incluir e acolher alunos típicos e atípicos. Criar cultura formativa.
Como amor, disciplina e padrão profissional venceram resistências históricas
Por Fernando Brandt Vitoriano — Teleco Ralaosso - Professor de Skate (Colégio Loyola) e Escola de Skate RalaKids
Você já viu essa cena, mesmo sem ter estado lá: uma escola tradicional, reputação alta, exigência alta — e uma prática que carrega estigma tentando entrar pela porta da frente. No caso que segue, essa porta foi o Colégio Loyola, em Belo Horizonte.
A frase que resume o choque inicial é simples: ali, não bastava saber skate — tinha que saber escola.
O que aconteceu ao longo de meia década não foi “projeto bonito”. Foi conquista de padrão profissional: conduta, segurança, didática e resultado observável. Quando o padrão virou rotina, as portas abriram. E a Cultura Skateboard deixou de ser “tolerada” para ser integrada.
A verdade. Assusta mais que uma ladeira íngreme.
Um corredor limpo, um pátio organizado, uma coordenação que lê risco com lupa. Você entra com um skate e um capacete e sente o peso do olhar: não é hostilidade pessoal — é institucional.
Naquele início, tudo que parecia “detalhe” precisa virar critério: pontualidade, forma de falar, como você corrige um aluno, como você responde um pai, como você encerra uma aula, como você registra um incidente. A Escola séria não quer discurso de improviso, nem que seus alunos sejam cobaias; a escola séria quer previsibilidade aplicada, plano de aula, metodologia comprovada.
O estigma existe: para muita gente, skate é “ameaça”, “risco”, “subcultura”. A escola teme três coisas. E você precisa encarar as três sem drama:
Acidente e responsabilidade (civil, ética e operacional).
Imagem (o medo do “deu errado aqui dentro”).
O “sim de vitrine”: aceita “para parecer moderna”, mas não integra de verdade. Vira marketing. Não vira formação.
Esse “sim protocolar” é onde muitos projetos morrem nos primeiros meses: bonita foto, alguma estrutura, nenhum método sustentado.
A exigência da escola tradicional é fácil de entender e difícil de sustentar: padrão repetido.
Não é performance. É repetição do básico, toda semana, com a mesma qualidade:
turma organizada (fila, turnos, fluxo)
linguagem limpa, comando curto, correção objetiva
autoridade calma (sem grito, sem humilhação, sem “jeitinho”)
combinados claros e cumpridos
regra igual para todos, sem favoritismo
O Profissionalismo não é o show do professor; é o sistema que funciona quando ele está cansado.
Certificado não é método. Slide não é aula. Discurso não segura turma.
Na minha primeira aula no Curso de Formação da ABC do Skate Brasil, a lição do telhado de vidro. "Não entrem atirando pedras."
Estudar. Aprofundar. Praticar. Voltar a estudar. O que muda de verdade quando a capacitação é efetiva?
Planejamento com objetivo: cada aula tem foco, progressão e fechamento.
Gestão de turma e tempo: ninguém “some” da aula; o rodízio é justo; o risco é controlado.
Segurança operacional: regras de fluxo, área definida, progressões coerentes, intervenção no timing certo.
Comunicação com coordenação e famílias: o adulto da escola precisa de clareza — e precisa de evidência do que está sendo feito.
O aprender a aprender. O aprender a ensinar. O Explicar ou Complicar. A folha explicada.
Tenho muita saudade daqueles tempos de formação inicial. Mas a formação segue de forma contínua.
Mas a lição aqui é, se você quer respeito em escola tradicional, não peça confiança: entregue previsibilidade.
Toda integração real tem um ponto de virada: o dia que a escola para de “suportar” e começa a defender.
Às vezes, a virada nasce de evolução visível: um aluno que não sustentava frustração e passa a sustentar tentativa; um aluno tímido que ganha voz porque na pista existe turno e existe respeito; um pai que chega desconfiado e sai dizendo: “agora eu entendi o que vocês fazem aqui”.
E às vezes a virada nasce de um episódio-limite: um conflito na frente da família, com emoção alta e risco de descontrole. A escola não julga o skate nesse minuto — ela julga o adulto responsável. Se a resposta é método, não improviso — se a correção é firme, proporcional e educativa — o skate deixa de ser “atividade simpática” e vira ambiente de formação.
Se você reduz skate a “aula de manobra”, você perde. A escola não precisa disso. O que a escola precisa — e o skate entrega quando é bem conduzido — é cultura aplicada:
respeito ao espaço e ao outro
ritual de sessão (turnos, cuidado, presença)
ética de tentativa (errar sem desabar; acertar sem soberba)
coragem sem exibicionismo
persistência sem romantização do risco
coordenação, equilíbrio, propriocepção
autorregulação emocional (medo, frustração, insistência)
convivência e cooperação (turnos e regras de uso da pista)
É a diferença entre “tolerar skate” e integrar Cultura Skateboard.
A escola não quer promessa; quer sistema de segurança.
Quando você estrutura área, progressão, regras de fluxo, uso dos equipamentos e espaços, você inverte a percepção: o skate deixa de ser “risco” e vira método. A lição da compostura. Papéis e as divisões didático pedagógicas. Adaptar a técnica de ensinar e educar às peculiaridades de cada um.
O problema não é a tela “em si”. O problema é o pacote que costuma vir junto: sedentarismo, sono pior, atenção fragmentada.
É aqui que o skate é cruelmente potente: ele é difícil gostoso. Exige presença. Dá pertencimento. Cria microvitórias reais — não likes.
E você não precisa defender isso com opinião: existem bases técnicas sólidas.
A World Health Organization recomenda, para crianças e adolescentes, em média 60 minutos por dia de atividade física moderada a vigorosa, além de reduzir comportamento sedentário.
A Sociedade Brasileira de Pediatria atualizou o #MenosTelas #MaisSaúde (2024), com orientações para famílias e escolas no contexto digital.
O Ministério da Educação publicou guias para apoiar a implementação da Lei nº 15.100/2025 e orientar o uso de celulares no ambiente escolar.
A American Academy of Pediatrics publicou, em janeiro de 2026, atualização sobre “ecossistemas digitais”, indo além de “tempo de tela” e discutindo desenho, contexto e responsabilidades.
Você não precisa prometer milagre. Você precisa apontar indicadores que qualquer coordenação reconhece:
adesão e frequência estáveis
melhora motora perceptível (equilíbrio, coordenação, controle)
disciplina de fluxo (turnos, respeito, autocontrole)
alunos “difíceis” que encaixam por causa de regra clara
alunos tímidos que ganham voz por pertencimento e ritual
fortalecimento comunitário (pais mais presentes, eventos mais saudáveis, menos conflito)
Isso é mensurável sem virar planilha. É observável no pátio, no humor, no comportamento e na permanência.
2026. Skate não é “atividade extra”. É ferramenta educativa, e quando a escola aceita integrar — e não apenas tolerar, o skate na escola se torna um caminho sem volta, e cada vez veremos escolas no Brasil inteiro construindo pistas de skate.
Menções de caminhada e equipe:
Prof. Vidigal, Prof. Carlos, Prof. Flávio, Profa. Sarah e muitos outros que sustentam, no dia a dia, a travessia do “não” para o “agora é parte”. Para incluir e acolher, primeiro, eu fui incluído e acolhido. O Colégio Loyola não "aceitou" a nossa Cultura Skateboard. O Colégio Loyola Integrou a Cultura Skateboard de todos nós. Agradecer é finalizar mais um drop sorrindo, feliz e realizado, pronto para dropar de novo. Muito obrigado.
Autor: Prof. Teleco Ralaosso
Fernando Brandt Vitoriano — Professor de Skate (Colégio Loyola) e Escola de Skate RalaKids
Cidade/ano: Belo Horizonte, 2026
Docente do Colegiado ABC do Skate Brasil - Minas Gerais