O skate ainda paga por décadas de preconceito — e também pela irresponsabilidade de quem confunde liberdade com improviso. Profissionalizar o ensino, registrar ocorrências e planejar riscos é proteger alunos e fortalecer toda a Cultura Skateboard.
O skate ainda carrega um pesado telhado de vidro construído ao longo de décadas.
Sobre ele permanecem a antiga fama de modalidade de marginais e bandidos, as proibições históricas em espaços públicos, a falsa ideia de que o skate provoca mais lesões do que outras práticas esportivas e o preconceito daqueles que nunca compreenderam sua dimensão cultural, educativa, social e econômica.
Esse telhado, porém, não foi construído apenas pelos adversários do skate.
Parte dele também foi erguida por falsos defensores da Cultura Skateboard: pessoas que transformaram a liberdade em desculpa para a irresponsabilidade, utilizaram o skate como fuga de compromissos consigo mesmas e passaram a defender uma lógica segundo a qual, quanto maior o abandono, a desordem e a precariedade, mais autêntica seria a prática.
Em nome de uma suposta pureza cultural, tentaram coibir aulas organizadas, rejeitaram orientações técnicas, desprezaram medidas de prevenção e trataram os cuidados básicos com a segurança dos praticantes como se fossem uma ameaça à essência do skate.
Não eram.
Ensinar corretamente nunca diminuiu o skate.
Cuidar nunca domesticou sua cultura.
Organizar nunca retirou sua liberdade.
Ao contrário: a ausência de responsabilidade ofereceu argumentos justamente àqueles que sempre desejaram afastar os skatistas dos espaços públicos, dos clubes, das escolas, dos projetos esportivos e dos recursos institucionais.
Basta que uma pista seja construída em uma cidade, em uma escola ou em um clube para que surjam disputas pelo espaço, tentativas de reserva de mercado e grupos interessados em limitar o acesso de uma cultura que cresce no mundo inteiro, atrai novos praticantes, mobiliza famílias e conquista cada vez mais simpatizantes.
Nesse ambiente, qualquer falha pode ser usada contra toda a comunidade.
Uma ocorrência mal conduzida, um acidente sem registro, uma aula sem critérios ou uma decisão tomada de maneira improvisada podem rapidamente alimentar a velha narrativa de que o skate é desorganizado, perigoso e incompatível com uma atuação profissional.
É esse o significado do telhado de vidro: sobre o skate, muitas vezes, não pesa apenas a avaliação de uma conduta individual.
Pesa o julgamento de toda uma modalidade.
Por isso, instrutores e professores não podem negligenciar os preceitos que asseguram uma condução responsável, coerente e tecnicamente fundamentada das atividades.
Atuar profissionalmente significa possuir um Plano de Contingência bem estruturado, conhecer os procedimentos adequados para cada tipo de ocorrência, organizar as informações, registrar os fatos relevantes e preservar a memória do que aconteceu, das providências adotadas e das orientações fornecidas.
As anotações não são burocracia inútil.
Elas permitem acompanhar o desenvolvimento dos alunos, identificar reincidências, corrigir procedimentos, aperfeiçoar as aulas, comunicar adequadamente as famílias e demonstrar que o trabalho foi conduzido com responsabilidade.
Da mesma forma, o registro das ocorrências não deve ser compreendido como instrumento de punição ou de defesa pessoal do instrutor.
Ele faz parte de uma cultura profissional de prevenção, transparência, aprendizado e cuidado coletivo.
Uma atuação responsável precisa considerar, entre outros aspectos:
— avaliação das condições do espaço e dos equipamentos;
— orientação prévia aos praticantes;
— compatibilidade entre exercícios, idade, experiência e capacidade técnica;
— definição de procedimentos para quedas, lesões e outras intercorrências;
— comunicação adequada com responsáveis, coordenação e instituições;
— anotação objetiva das ocorrências e das medidas adotadas;
— revisão periódica do Plano de Contingência.
A experiência prática é indispensável, mas não basta.
O profissional precisa demonstrar que sabe ensinar, prevenir, observar, decidir, registrar e responder pelas condições em que sua atividade é conduzida.
Quem reivindica respeito profissional precisa produzir evidências de profissionalismo.
No skate, responsabilidade não é o oposto da liberdade.
É aquilo que permite que a liberdade continue existindo.
Cada aula bem conduzida, cada ocorrência devidamente registrada e cada procedimento executado com seriedade retiram uma placa desse antigo telhado de vidro.
O Instrutor de Skate não cuida apenas do aluno que está diante dele.
Cuida também da reputação, da permanência e do futuro de toda a Cultura Skateboard.
Matéria: O Skate e o “Telhado de Vidro”
Editoria: Cultura Skateboard | Formação Profissional | Segurança | Pedagogia do Skate
Pesquisa, organização editorial e redação: AG5 — Agência de Conteúdo
Curadoria cultural e pedagógica: Frederico Manica — Central do Skate
Publicação: Central do Skate
Tema: Profissionalização dos Instrutores de Skate, prevenção, segurança, registro de ocorrências, responsabilidade pedagógica e reconhecimento profissional
Abordagem: Cultura Integrativa, formação responsável, Plano de Contingência, proteção dos praticantes e fortalecimento da Cultura Skateboard