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Skate é arte, cair faz parte!

Tomás Berthier

Aprender a cair no skate começa antes do primeiro drop. Técnica, bundeira, pads, joelheiras e progressão inteligente protegem quadril, tornozelos e futuro. Menos pose. Mais conforto, segurança e longevidade no skate.

O paradoxo de aprender a cair

Por que treinar quedas é fundamental no skate de transição

Tomás Berthier
Membro do Colegiado de Docentes da ABC do Skate Brasil desde 2020
Especialista em Circuitos Lúdicos


Preâmbulo de Frederico Manica 

Há perguntas que escondem apenas ignorância metodológica.

Skate é perigoso?

Perigoso, afinal, é o quê?
O skate?
Ou a falta de pedagogia?
Ou a progressão mal feita?
Ou a vaidade de acelerar etapas?
Ou a cultura que prefere vender pose de coragem a construir permanência real?

A queda, no skate, não é "erro".
É parte constitutiva do processo.
Mas justamente por isso ela não pode ser tratada com leviandade.

    Existe um lacre recorrente, quase sempre travestido de “essência”, “raiz”, “verdade de pista” ou “amor ao skate”: a defesa de uma irresponsabilidade estética, como se expor o corpo desnecessariamente, desprezar equipamentos, banalizar impactos e fazer do descuido uma bandeira fossem sinais de autenticidade.

Não são.

São, muitas vezes, sinais de auto flagelo.

Pior: isso é frequentemente vendido aos mais novos como bravura.
Não é bravura.
É abandono travestido de estilo.
É romantização do dano.
É glorificação de um presente irresponsável que cobrará uma conta que a maioria não poderá pagar.

Ensinar skate não é só ensinar a andar, dropar ou voar.
É ensinar o corpo a durar.
É ensinar a cair.
É ensinar a sair.
É ensinar a proteger estruturas que, uma vez degradadas, não se recuperam com discurso bonito.

Por isso é preciso afirmar sem rodeios:

Ensinar a cair começa antes do primeiro drop mais arriscado.

Começa no conforto.
Começa na segurança.
Começa no repertório motor.
Começa na ludicidade inteligente.
Começa na alfabetização corporal.
Começa na preparação das respostas do corpo.
Começa na recusa de transformar o iniciante em cobaia de uma cultura imprudente.

    Pais e instrutores precisam compreender isso com firmeza.
Quem busca apenas performance rápida, brilho momentâneo, vídeo vistoso e validação apressada costuma colher resultados curtos, frágeis e caros.

     Sim. O Provérbio basilar "O Skate é arte, cair faz parte" é real.           

     É nesse horizonte e com profundidade de campo, que o trabalho de Tomás Berthier, membro do Colegiado de Docentes da ABC do Skate Brasil desde 2020 e especialista em Circuitos Lúdicos, ganha relevo especial. Seu eixo é simples, forte e correto: ensinar a cair começa antes do primeiro drop.

A transição exige, e o skatista que você será, aos 30, 40, 50 anos.... (e além dos 65 anos do nosso grande Ilzeli Confessor) agradecerá. 

Como disse Nietzsche: "Torna-te quem tu és."



O paradoxo de aprender a cair

Tomás Berthier

Membro do Colegiado de Docentes da ABC do Skate Brasil desde 2020
Especialista em Circuitos Lúdicos


    Existe uma verdade contraintuitiva no skate de transição que todo iniciante deveria compreender antes mesmo de subir na primeira rampa: aprender a cair corretamente é tão importante quanto aprender a andar. Em modalidades como bowl, park, mini ramp e half pipe, o skatista convive com superfícies curvas, alturas variáveis, velocidades crescentes e mudanças de direção que exigem leitura corporal fina. Ignorar o treinamento de quedas é uma das razões mais frequentes para o abandono precoce da prática.

Não por falta de talento.
Não por ausência de paixão.
Mas por lesões evitáveis, medo mal elaborado e falta de progressão consistente.


O ambiente do skate de transição e seus riscos

     Quem anda em transição convive com aceleração,  transferência de peso, perda de linha, erro de borda, erro de entrada e erro de saída. O problema não é cair. O problema é cair sem preparo, sem técnica, sem equipamento e sem cultura de proteção. Uma queda mal resolvida pode resultar em fraturas de punho, lesões de ombro, contusões em quadril, traumatismos cranianos e lesões cervicais.

Boa parte disso pode ser reduzida com treino adequado, progressão correta e proteção inteligente.

Por que o corpo reage mal às quedas sem treino

    Sem treino, o corpo responde ao susto com reflexos ruins: endurece, estende os braços, trava a cadeia corporal, projeta a cabeça e distribui mal a energia do impacto. No skate de transição, isso é especialmente perigoso. O treino de queda existe para substituir o reflexo instintivo pelo gesto técnico: baixar o centro de gravidade, arredondar o corpo, proteger cabeça e pescoço, dissipar impacto e evitar que pontos frágeis absorvam o choque inteiro.

Treinar a queda é educar o corpo para responder melhor.
É trocar o susto bruto por inteligência incorporada, hábito construído, naturalidade ao se proteger de imprevistos.

Técnicas essenciais de queda no skate de transição

Rolamento

    O rolamento é uma das respostas mais eficientes para dissipar energia sem concentrá-la em punhos, ombros e cabeça. Em vez de tentar frear o impacto de forma brusca, o skatista aprende a transformar a queda em movimento contínuo. Esse recurso deve ser praticado primeiro em ambiente macio, até tornar-se automático.

Queda lateral com quadril e coxa

    O famigerado tombo ladal é uma das quedas mais traiçoeiras da transição. Parece banal até o dia em que cobra seu preço no quadril, no sacro, na lateral da coxa, na lombar ou em toda a cadeia de compensação.

Por isso, essa queda não pode ser tratada como detalhe.
Ela exige técnica e proteção específica.

Descida controlada pela transição

    Ao perder a linha no topo ou interromper uma tentativa, muitas vezes o mais seguro não é resistir heroicamente, mas reorganizar o corpo e aceitar a descida de modo controlado, deslizando com áreas mais aptas a absorver contato.

Proteção de cabeça e pescoço

    Queixo recolhido, cervical protegida, cabeça fora da linha de impacto. Capacete não é adereço de timidez; é parte do equipamento de prática.

Knee slide com joelheiras

    O deslize com joelheiras é um recurso técnico valioso quando corretamente ensinado. Não é só “se jogar”: é reconhecer o momento, orientar o corpo e confiar num equipamento adequado.

O papel da bundeira e dos pads de quadril

    Aqui está um ponto que a cena frequentemente negligencia por vaidade, ignorância ou má-fé: a bundeira e os pads de quadril têm papel fundamental na proteção do skatista no skate de transição.

A bundeira não é frescura.
Não é acessório de iniciante inseguro.
Não é concessão.
É inteligência.

    Ela protege justamente uma das regiões mais expostas no tombo ladal e nas quedas de costas ou de quadril: glúteos, região sacral, cristas ilíacas e entorno do quadril. Em quedas em que o corpo não consegue rolar, ou em situações de giro incompleto, desequilíbrio tardio ou saída atravessada, os pads de quadril e a proteção posterior funcionam como recurso decisivo para absorção e distribuição do impacto.

E é preciso dizer algo que muita gente sabe, mas finge não saber:

Skatistas longevos sempre usaram pads.

    Sempre houve, entre os que realmente quiseram durar, uma ética prática de proteção. A caricatura do sujeito “raiz” que despreza tudo e vai no osso não é sinal de profundidade; muitas vezes é só publicidade de curto prazo para uma vida longa de dor.

    Quem vive desabando sobre os tornozelos, vendendo a ideia de que isso faz parte do “compromisso verdadeiro com o skate”, frequentemente demonstra exatamente o oposto: descompromisso com o próprio futuro.

Porque o impacto mal resolvido não destrói apenas a cena do momento.
Ele corrói a base.
Corrói tornozelos.
Corrói a planta dos pés.
Corrói o sistema de apoio que sustentará decadas de prática.

E aqui é preciso insistir: a planta dos pés e os tornozelos não são detalhe no skate.
São fundação.
São interface.
São leitura fina de solo, compressão, resposta, absorção, equilíbrio e microajuste.

Quem banaliza a repetição de impactos ruins nessas estruturas está sabotando a própria continuidade.

A mentira cultural do “quanto pior, melhor”

Existe um viés muito nocivo na cena: a crença de que correr mais riscos, proteger-se menos e vender uma imagem de irresponsabilidade pode ser algo benéfico, inspirador ou “mais verdadeiro”.

Não é.

Não é nobre.
Não é pedagógico.
Não é amor ao skate.

    Em muitos casos, isso é apenas discurso de quem defende, conscientemente ou não, a lógica do quanto pior, melhor. Gente que transforma precariedade em estética, descuido em símbolo e desorganização em certificado moral. Gente que, por falta de amor próprio, passa a chamar autonegligência de paixão.

    Isso precisa ser denunciado porque afeta diretamente os mais novos. O iniciante olha, copia, idealiza. E quando vê sujeitos mais velhos, ou mais visíveis, tratando a proteção como covardia e a imprudência como verdade, pode internalizar uma pedagogia perversa: a ideia de que se destruir um pouco é prova de pertencimento.

Não é.

Pertencimento real não exige autossabotagem.
Compromisso real não exige mutilação progressiva.
Coragem real não exige burrice.

    Há uma diferença profunda entre aceitar que o skate envolve risco e transformar o risco em ideologia. A primeira postura é madura. A segunda é decadente.

Como estruturar o treino de quedas

    O treino de quedas precisa obedecer a uma lógica pedagógica clara: do mais controlado ao mais específico. Primeiro, superfícies macias. Depois, solo plano com skate. Em seguida, pequenas transições. Só então situações mais específicas, com maior velocidade, altura e complexidade.

Mas isso ainda não basta.

    O treino de quedas não deve existir como apêndice. Ele precisa integrar um sistema maior de formação com controle de centro de gravidade, agachamento funcional, dissociação corporal, reação a desequilíbrios, coordenação bilateral, leitura de transição, saída segura, uso correto dos equipamentos e confiança progressiva.

Queda não é só um evento.
É desdobramento de todo o processo anterior.

O papel do equipamento de proteção

Nenhuma técnica substitui equipamento.
Nenhum equipamento substitui técnica.
Mas ambos fracassam quando não há cultura de uso coerente.

    Capacete, joelheiras, cotoveleiras, Wrist-guard (protetor de punho), bundeira/ pads de quadril. 

E a nossa indústria nacional hoje conta com opções de alta qualidade.

    É aqui que o debate precisa sair da infantilidade. Há quem tente vender a ausência de proteção como se fosse uma forma superior de liberdade. Não é. Em geral, é só uma forma inferior de responsabilidade.

O corpo do skatista não é infinito.
O tornozelo não esquece.
A planta do pé não esquece.
O quadril não esquece.
A lombar não esquece.

Quem quer durar aprende a proteger as estruturas que sustentam a prática.

A dimensão psicológica: medo, coragem e permanência

    O medo de cair altera postura, trava o gesto e piora a qualidade do movimento. Mas o oposto do medo não é imprudência. É preparo. O treino de quedas reduz o terror difuso e converte o medo em respeito consciente.

Isso é o que interessa.
Nem pânico.
Nem pose.
Nem paralisia.
Nem exibicionismo.

Coragem, no skate, não é agir como se nada pudesse acontecer.
Coragem é construir capacidade de seguir, mesmo sabendo que algo pode acontecer, porque o corpo foi preparado, o processo foi respeitado e as estruturas de proteção foram consideradas.

Cair bem é uma habilidade a ser desenvolvida

    Investir no treino de quedas, no uso correto dos equipamentos, na proteção do quadril, na preservação dos tornozelos, da planta dos pés e da base de apoio, não diminui o skate. Ao contrário: torna o skate sustentável.

Aprender a cair é aprender a continuar.
Aprender a se proteger é aprender a durar.
Aprender a durar é, no fim, uma das formas mais sérias de amar o skate.

    Pais e instrutores precisam recusar com firmeza a mentira cultural segundo a qual proteger o corpo seria falta de autenticidade.

    O que sustenta uma cultura digna não é a celebração do dano.
É a produção de continuidade.
É a capacidade de formar praticantes que andem bem, caiam bem, pensem bem e durem bem.

    Ensinar a cair começa antes do primeiro drop porque começa antes da primeira queda.
Começa no modo de apresentar o skate.
Começa na recusa do atalho.
Começa na defesa do conforto e da segurança como fundamentos, não como fraquezas.
Começa na proteção do que o corpo tem de mais precioso: sua possibilidade de continuar.

    Quem vende irresponsabilidade como amor ao skate mente.
Mente para os outros e, muitas vezes, mente para si.

    Amor ao skate, quando é amor mesmo, quer permanência.
Quer corpo íntegro.
Quer futuro.
Quer o prazer de andar hoje, amanhã e daqui a anos.
Quer saúde global, não só performance breve.


    Este material se apóia nos fundamentos, conceitos e experiências desenvolvidos em O Método 30-30, Guia do Instrutor, Curso Completo de Skate — Módulos I, II e III, materiais pedagógicos da ABC do Skate Brasil,  os Cadernos de Cultura Skateboard,  o acervo técnico do Colegiado de Docentes da ABC do Skate Brasil, práticas de formação em Circuitos Lúdicos aplicadas ao skate e experiência de campo acumulada em iniciação esportiva, desenvolvimento do repertório motor, prevenção de lesões e progressão pedagógica no Skateboard de transição.


Autor: Prof. Tomás Berthier

Tomás Berthier  — TB Skate Scholl 
Cidade/ano: Garopaba, 2025
Docente do Colegiado ABC do Skate Brasil - Santa Catarina

Preâmbulo: Frederico Manica

Integração editorial: AG5 / Cinco Continentes Editora

Reprodução autorizada exclusivamente para fins educacionais, citando a fonte.
© 
Prof. Tomás Berthier / AG5 - Cinco Continentes Editora LTDA


 

Tags: Cultura Skateboard