Identitarismo é quando a identidade coletiva passa a dominar o julgamento sobre pessoas, direitos e conflitos. Entenda suas origens, benefícios, riscos e os sinais de manipulação.
O discurso aparece principalmente em época de eleição, disputa por cargo, verba ou visibilidade? A pessoa fala em nome dos pobres, mas esconde os próprios privilégios? Denuncia exclusão, mas exclui quem discorda? Pede igualdade, mas exige tratamento especial para si e para os seus? Condena preconceitos no adversário, porém aceita rótulos, humilhações e generalizações quando favorecem sua causa? Usa mais histórias emocionais e acusações do que provas, propostas e resultados? Troca de bandeira conforme o público ou o benefício disponível?
Nenhum desses sinais, isoladamente, comprova má-fé. Uma pessoa rica pode defender legitimamente os pobres, assim como alguém atingido por uma injustiça pode relatá-la com emoção. O alerta surge quando as contradições se acumulam e o sofrimento deixa de orientar uma causa para servir como instrumento de prestígio, proteção, vantagem ou poder.
É nesse terreno que aparece o identitarismo: a transformação de identidades coletivas — raça, sexo, gênero, religião, nacionalidade, origem, orientação sexual ou pertencimento cultural — na principal lente para julgar pessoas, distribuir legitimidade e organizar disputas políticas.
A palavra deriva do latim idem, “o mesmo”, por meio de identitas, “identidade”, acrescida do sufixo -ismo, que indica doutrina, tendência, sistema ou movimento.
Identitarismo é uma visão política, social e cultural que interpreta indivíduos, conflitos, direitos e relações de poder principalmente a partir da identidade dos grupos aos quais pertencem.
Seu ponto de partida é legítimo: pessoas de determinados grupos podem sofrer formas específicas de discriminação, apagamento, violência, exclusão ou desigualdade que não são plenamente compreendidas quando tratadas apenas de maneira genérica.
Em sua expressão construtiva, busca reconhecimento, pertencimento, proteção, representação, voz pública, dignidade, inclusão, igualdade de direitos, reparação de injustiças, combate à discriminação e participação nas decisões.
Nesse sentido, pode revelar sofrimentos antes ignorados, ampliar direitos, corrigir exclusões históricas e permitir que grupos pouco ouvidos participem da vida pública.
O problema surge quando a identidade deixa de ser uma dimensão da pessoa e passa a explicar a pessoa inteira.
Em sua forma radicalizada ou instrumental, o identitarismo pode reduzir indivíduos ao grupo a que pertencem, atribuir virtudes ou culpas coletivas, transformar sofrimento em credencial de autoridade, substituir argumentos por posições sociais e considerar determinadas pessoas mais legítimas para falar apenas por sua identidade.
Também pode interpretar discordância como agressão, converter a linguagem em campo permanente de vigilância, estimular patrulhamento, autocensura e censura social, produzir competição entre vítimas, fragmentar causas comuns, alimentar tribalismo, ressentimento, polarização e hostilidade e bloquear o diálogo entre grupos.
Nesse ponto, passa a confundir reconhecimento com privilégio, reparação com revanche e justiça com imunidade à crítica.
Quem recorre ao identitarismo costuma buscar uma combinação de reconhecimento, pertencimento, proteção, reparação, representação e poder político.
Em sua motivação mais legítima, afirma:
“Minha experiência não está sendo vista. Quero dignidade, segurança, voz e direitos.”
Em suas formas mais deformadas, porém, pode buscar superioridade moral, autoridade automática, proteção contra questionamentos, controle sobre a linguagem, poder para definir quem pode falar, legitimidade para determinar quem deve ser acreditado e capacidade de silenciar opositores.
Existe, portanto, uma diferença decisiva entre desejar ser ouvido e desejar controlar quem pode falar.
O identitarismo moderado quer não ser apagado.
O identitarismo armado transforma identidade em escudo, credencial e arma.
Para distinguir defesa legítima de manipulação identitária, observe:
A pessoa aceita perguntas, provas e discordâncias?
Aceita para si as mesmas regras que exige dos outros?
Reconhece indivíduos antes de rotulá-los pelo grupo?
Defende igualdade ou busca privilégios para os seus?
Combate a exclusão sem excluir quem discorda?
Apresenta propostas e resultados ou vive apenas de acusações e comoção?
Mantém os mesmos princípios diante de aliados e adversários?
Usa uma causa mesmo quando ela não lhe traz dinheiro, cargo, prestígio ou visibilidade?
Nenhum sinal isolado basta para condenar alguém. Mas, quando vários se repetem, o drama pode ter deixado de ser causa e passado a ser instrumento.
O maior ponto cego do identitarismo é combater estereótipos criando novos estereótipos, rejeitar julgamentos coletivos enquanto julga coletivamente e tentar superar divisões aprofundando as fronteiras entre grupos.
A identidade é parte legítima da experiência humana e da política. Torna-se identitarismo quando passa a ser a lente dominante para interpretar pessoas, direitos, conflitos e valores.
A identidade pede reconhecimento.
O identitarismo exige alinhamento.
A identidade pode explicar uma ferida.
Não pode explicar o ser humano inteiro.
A identidade pode ser ponte.
O identitarismo começa quando ela vira trincheira.
Central do Skate
Cultura Skateboard, Educação e Formação Humana
Matéria: Identitarismo: quando a identidade deixa de ser ponte e passa a ser trincheira
Editoria: Cultura | Sociedade | Educação | Pensamento Crítico
Pesquisa, organização editorial e redação: AG5 — Agência de Conteúdo
Autor e Curadoria: Frederico Manica — Central do Skate
Publicação: Central do Skate
Tema: Identidade, política, pertencimento, manipulação social e pensamento crítico
Abordagem: Formação cidadã, leitura crítica do discurso e responsabilidade coletiva