Ganhar passa. Vencer permanece. Fernando “Teleco” Brant reflete sobre competição, educação, amizade, legado e propósito, mostrando por que uma medalha registra um resultado, mas não define sozinha uma verdadeira vitória.
Ganhar é maravilhoso.
Não há por que diminuir isso para falar sobre vitória de uma maneira mais profunda.
Ganhar uma competição, subir no lugar mais alto do pódio, receber uma medalha, um troféu, uma premiação, dinheiro, reconhecimento; olhar ao redor e perceber que naquele dia, naquele lugar, entre todos que estavam buscando a mesma coisa, você conseguiu.
É maravilhoso.
Existe um momento de esplendor ali. De glória mesmo.
E tudo bem chamar de glória.
O problema talvez comece quando imaginamos que aquilo precisa durar para sempre.
Porque não dura.
A competição acaba. O público vai embora. O pódio é desmontado. A medalha vai para casa. As fotografias permanecem. As histórias permanecem. Permanecem também os semblantes das pessoas que estavam ali conosco, algumas querendo exatamente aquela mesma vitória.
E no dia seguinte existe outra vez a vida.
É aí que, para mim, aparece a diferença entre ganhar e vencer.
Se eu tiver que definir vitória olhando não apenas para uma competição, mas para a vida como um todo, minha resposta é relativamente simples:
meu trabalho e minha subsistência virem de alguma coisa que eu amo fazer.
Isso, para mim, é vencer.
Ganhar está muito relacionado a um resultado. Vencer é maior. Está conectado à história que construímos, às pessoas que atravessaram essa história e àquilo que conseguimos fazer com o tempo que recebemos.
Eu sou professor.
Minha profissão é educar.
E faço isso por meio de algo que amo profundamente: o Skateboard.
Quando penso nisso, lembro de pessoas que trabalharam comigo.
Lembro do Bubu Johnson.
Hoje ele vive na Espanha. Faz muita falta no meu cotidiano, embora continue até hoje no nosso grupo de professores.
De vez em quando, o Bubu manda uma mensagem. Lembra dos nossos tempos trabalhando juntos. Agradece pelos aprendizados, pelas oportunidades, pelas experiências que tivemos.
Pode parecer piegas.
Para mim não é.
Receber uma mensagem dessas me dá um orgulho difícil de comparar com qualquer premiação.
Porque aquilo não acaba no dia seguinte.
Não fica velho na manhã seguinte.
Não perde importância quando começa o próximo campeonato.
É maior que a fotografia.
É maior que o troféu.
É maior até que determinadas conquistas materiais.
Existe ali uma coisa que passou de uma pessoa para outra e continuou existindo.
Talvez sejamos justamente isso: um somatório das virtudes que conseguimos colocar em circulação.
O que aprendemos, entregamos.
O que amamos, compartilhamos.
Aquilo que faz sentido para nós acaba contaminando positivamente as pessoas ao redor.
E, no nosso caso, ainda temos o privilégio de receber por isso.
É a nossa profissão.
Nós educamos.
Lorena, Bubu, Caio, eu e tantas pessoas que construíram e constroem essa caminhada temos um patrimônio muito particular: a capacidade de dividir com outras pessoas o amor que temos pelo Skateboard — e fazer dessa capacidade o nosso trabalho e a nossa subsistência.
Se isso não é uma vitória, o que seria?
Claro que é.
Da mesma forma que é possível perder uma competição e sair dela muito maior do que se entrou.
Uma pessoa pode ganhar por muitos motivos.
Pode conquistar dinheiro.
Pode conquistar uma posição.
Pode receber um prêmio.
Pode conseguir uma vaga.
Pode ser reconhecida.
Pode até receber algo que não construiu.
E vamos evitar a hipocrisia: quem não gostaria de descobrir amanhã que recebeu uma enorme herança de algum desconhecido?
Seria ótimo.
Mas seria uma conquista material. Não necessariamente uma vitória.
Dinheiro resolve problemas importantes. Compra uma casa, um carro, oferece segurança, conforto, possibilidades. Às vezes tapa buracos enormes da nossa existência.
Mas dinheiro, prêmio ou reputação não conseguem, sozinhos, responder uma pergunta muito mais difícil:
o que você está fazendo da sua vida?
Para mim, a vitória aparece quando existe alguma relação entre aquilo que fazemos, a melhor parte que conseguimos colocar no mundo e a diferença que isso provoca na vida de alguém.
Não estou romantizando dificuldade.
Nem dizendo que dinheiro não importa.
Importa muito.
Estou dizendo apenas que ganhar alguma coisa e construir uma vida da qual podemos nos orgulhar são acontecimentos diferentes.
Você pode ganhar e fracassar.
Pode chegar em primeiro lugar desrespeitando pessoas, destruindo relações, atravessando critérios, favorecendo uns em detrimento de outros, transformando crianças em instrumentos da vaidade de adultos.
O resultado continuará registrado.
Primeiro lugar.
Mas a pergunta permanece:
venceu?
No Skateboard isso talvez seja ainda mais fácil de compreender.
Imagine uma montanha.
Você decide subi-la.
Existe outra pessoa subindo ao seu lado.
Um relógio pode dizer quem chegou primeiro. Um número pode criar uma comparação entre vocês.
Isso é importante numa competição. É justamente assim que uma competição funciona.
Mas a montanha continua sendo a montanha.
O desafio fundamental continua sendo você diante dela.
No skate também existe isso.
A volta pode não entregar a colocação que você desejava.
A manobra pode não entrar no momento decisivo.
O outro pode ter sido melhor naquele dia.
A nota pode colocar você no último lugar.
Nada disso apaga necessariamente aquilo que aconteceu dentro daquela experiência.
Talvez você tenha enfrentado um medo.
Talvez tenha executado algo que não conseguia meses antes.
Talvez tenha aprendido a lidar com pressão.
Talvez tenha descoberto um limite.
Talvez tenha encontrado novos amigos.
Talvez tenha voltado para casa louco para treinar novamente.
Por isso uma derrota não significa simplesmente que você não ganhou.
Quando você sobe uma montanha, está desafiando a montanha.
O sujeito que está ao seu lado pode ser necessário para estabelecer uma comparação, um tempo, uma classificação.
Mas existe outra vitória que nenhum cronômetro consegue medir.
É aquela adrenalina capaz de transformar movimento em felicidade.
Eu gosto de medalha.
Gosto de troféu.
Gosto de campeonato.
Gosto de ganhar.
Acho importante deixar isso muito claro, porque existe também um discurso estranho que tenta valorizar a formação diminuindo a competição.
Não precisamos fazer isso.
A competição pode ser extraordinária.
Ela ensina preparação, disciplina, responsabilidade, compromisso, concentração, leitura do outro, leitura de si próprio e capacidade de entregar alguma coisa em circunstâncias difíceis.
O problema não é querer ganhar.
O problema é acreditar que ganhar é tudo.
A medalha é muito legal de levar para casa.
Depois ela vai para a prateleira.
As amizades ficam.
As histórias ficam.
As viagens ficam.
A memória daquele dia fica.
O aprendizado fica.
A pessoa que você se tornou por ter atravessado aquela experiência fica.
O verdadeiro vencedor talvez seja justamente aquele que consegue trazer de uma competição coisas que durem mais do que seus troféus.
Existe ainda uma armadilha maior.
Ganhar, ganhar, ganhar, ganhar, ganhar.
Sem parar.
Será que determinado tipo de “ganha-ganha” não pode esconder uma derrota enorme?
Às vezes penso na imagem de um cachorro correndo atrás de um osso preso numa vara à sua frente.
Ele corre.
O osso avança.
Ele corre mais.
O osso continua na mesma distância.
E assim ele pode passar a vida inteira.
Nós também podemos fazer isso.
A próxima medalha.
O próximo título.
O próximo contrato.
O próximo reconhecimento.
Mais dinheiro.
Mais seguidores.
Mais uma vitória.
Mais uma.
Mais uma.
E quando finalmente conseguimos aquilo que acreditávamos que nos faria felizes, imediatamente colocamos outro osso alguns centímetros adiante.
Esse mecanismo é perigoso porque faz a pessoa viver permanentemente em dívida consigo mesma.
Nada basta.
Nenhum resultado permanece suficiente.
Essa é uma das grandes responsabilidades de professores, treinadores, pais e adultos que cercam crianças e jovens no esporte impedir que o amor pela prática seja sequestrado por essa perseguição infinita.
Queremos ensinar alguém a buscar resultado.
Claro que queremos.
Mas precisamos ensinar também que seu valor não depende exclusivamente dele.
O professor e o treinador ocupam um lugar muito delicado nessa história.
Nós podemos ensinar uma criança a desejar uma medalha sem ensinar que ela vale mais porque recebeu uma.
Podemos ensinar competitividade sem ensinar crueldade.
Podemos exigir preparação sem transformar cobrança em humilhação.
Podemos trabalhar excelência sem fabricar arrogância.
Podemos ensinar alguém a lutar pelo primeiro lugar e, ao mesmo tempo, ser capaz de apertar a mão de quem chegou antes.
Isso também é educação.
Aliás, talvez seja uma das partes mais importantes dela.
Porque campeonatos acabam.
A pessoa continua.
Eu acredito que sim.
Quem recebeu oportunidade, conhecimento, estrutura, atenção, recursos e confiança carrega alguma responsabilidade de fazer alguma coisa com aquilo.
Não necessariamente devolver para a mesma pessoa.
Não como dívida.
Mas como continuidade.
Alguém ensinou você.
Em algum momento você poderá ensinar alguém.
Alguém abriu uma porta.
Talvez amanhã seja você quem consiga mantê-la aberta para outra pessoa.
Alguém acreditou no seu potencial quando isso ainda não era evidente.
Um dia você talvez reconheça o potencial de alguém antes que o restante do mundo perceba.
É assim que uma cultura continua existindo.
É assim que uma escola deixa de ser apenas o lugar onde alguém aprende uma manobra.
Se eu tivesse que colocar uma coisa particular dentro de um possível Kit Felicidade, colocaria a caridade.
Não penso aqui apenas na caridade institucional.
Penso naquela capacidade humana de provocar alguma coisa boa na vida de outra pessoa sem transformar imediatamente esse gesto numa negociação.
Ensinar alguma coisa.
Dar uma oportunidade.
Dividir conhecimento.
Abrir espaço.
Acolher.
Perceber alguém.
Produzir naquele outro ser humano um momento que talvez ele carregue por muitos anos.
Existe um tipo de felicidade muito particular em perceber que alguma coisa que saiu de você passou a fazer parte da história de outra pessoa.
Talvez esteja aí uma vitória que nenhum juiz consegue pontuar.
Talvez não seja possível saber olhando apenas para o resultado.
Um sujeito pode terminar em último lugar e sair dali vencedor.
Outro pode chegar ao topo do pódio e, porque a premiação não lhe agradou, sair derrotado.
A classificação conta quem ganhou aquela disputa.
Para descobrir quem venceu, precisamos olhar um pouco além.
Ganhou de verdade aquele que fez valer a pena o tempo que esteve ali.
Aquele que conseguiu aproveitar também tudo aquilo que existe ao redor do foco estreito da competição.
As pessoas.
As experiências.
As viagens.
As amizades.
Os aprendizados.
As dificuldades.
As histórias.
O próprio movimento.
Porque, no fim, talvez vencer seja perceber que a vida não acontece apenas naquele ponto para o qual estamos olhando.
Há um mundo inteiro ao redor.
A medalha vai para a prateleira.
O troféu acumula poeira.
A fotografia envelhece.
Mas algumas pessoas que encontramos permanecem conosco.
Algumas coisas que ensinamos continuam vivendo em outras pessoas.
Algumas experiências mudam para sempre a maneira como enxergamos o mundo.
E talvez seja justamente aí que esteja a diferença.
Ganhar passa. Vencer permanece.
Central do Skate
Cultura Skateboard, Educação e Formação Esportiva
Série Especial: SOBRE VENCER! — Skate e sociedade
Matéria: Ganhar passa. Vencer permanece.
Autoria: Fernando Brant Vitoriano — Teleco Ralaosso
Skatista, instrutor e docente do Colegiado da ABC do Skate Brasil — Minas Gerais
Editoria: Cultura Skateboard | Educação | Formação Esportiva | Ética | Competição | Sociedade
Pesquisa, organização editorial e redação final: AG5 — Agência de Conteúdo
Curadoria editorial: AG5 — Central do Skate
Publicação: Central do Skate & ABC do Skate Brasil
Tema: Vitória | Derrota | Ética | Formação | Esporte | Responsabilidade | Legado
Abordagem: Cultura Skateboard Integrativa | Formação Humana | Desenvolvimento Esportivo | Responsabilidade Pedagógica
Tags: Skate | Vitória | Competição | Educação | Ética | Formação Esportiva | Cultura Skateboard | Esporte Juvenil | Treinadores | Sociedade