No CADES, no Rio de Janeiro, ASERJ e ABC do Skate aproximaram as culturas do surf e do skate em um ciclo formativo. A matéria mostra como transformar a capacitação em aulas seguras, inclusivas e centradas nas necessidades de cada aluno.
Entre os dias 23 e 25 de outubro de 2026, no Rio de Janeiro, uma experiência formativa ultrapassou os limites convencionais de um curso de capacitação. A integração entre ASERJ (Associação dos Skatistas do Estado do Rio de Janeiro), a ABC do Skate Brasil e o CADES (Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento do SURF) inaugurou um encontro singular entre educadores das culturas Surf e Skate, reunidos em torno de um propósito comum: educar por meio do movimento, da convivência e do desenvolvimento humano.
Conduzida pelos docentes do Colegiado ABC, Cesar Augusto (Cesinha), Cipriano César (Cypress) e Frederico Manica (Fredi), a imersão encontrou no CADES algo extraordinário: uma instituição que transforma em prática cotidiana os preceitos da Cultura Integrativa — inclusão, acolhimento, pertencimento e formação indistinta de pessoas. Sob a liderança de Luiz Azevedo (Luiz) e Henry Ajdelsztajn (Henry), um verdadeiro coletivo de educadores constrói oportunidades e transforma trajetórias de crianças, jovens e adultos, fazendo das culturas Surf e Skate expressões irmanadas de educação e cidadania.
O resultado foi muito mais que uma turma capacitada. Foi a demonstração viva de que a cultura do movimento, o encontro entre gerações e a relação com a natureza permanecem capazes de disputar, com extraordinária vitalidade, a atenção sequestrada pelas telas.
O CADES é um oásis. Não porque esteja apartado do mundo, mas porque demonstra que outro mundo é possível — e já acontece.
Aquele encontro não encerrou uma formação. Inaugurou possibilidades. E, para os novos instrutores, deixou uma pergunta inevitável: recebido o certificado, o que começa agora?
É desse ponto que parte a primeira matéria da série DESAFIOS DA VIDA DE INSTRUTOR.
O que um instrutor precisa descobrir antes de ensinar a primeira manobra.
Série DESAFIOS DA VIDA DE INSTRUTOR — Artigo 01
Central do Skate | AG5 — Agência de Conteúdo
Uma nova turma de instrutores acaba de concluir sua capacitação.
Foram horas de estudos, experimentações, demonstrações, exercícios, avaliações e convivência. Novos conhecimentos, antigas convicções revisitadas, descobertas e, finalmente, o certificado.
Fotografias. Cumprimentos. Felicitações. Missão cumprida?
Ainda não.
O certificado encerra uma etapa de formação. Não encerra a necessidade de aprender. Muito menos transforma automaticamente conhecimento adquirido em competência pedagógica consolidada.
Há uma diferença extraordinária entre saber executar, saber explicar e conseguir ensinar.
E ela costuma aparecer diante da primeira pessoa que pergunta:
— Professor, o que vamos fazer hoje?
Existe uma armadilha especialmente sedutora para quem termina um curso: querer colocar imediatamente em prática tudo aquilo que aprendeu.
É compreensível. O entusiasmo convida à demonstração. A memória recente oferece exercícios, sequências, procedimentos e soluções. O instrutor deseja experimentar seus novos recursos.
Mas há uma pergunta anterior a todas essas intenções:
O aluno que está diante de você precisa aprender aquilo que você está ansioso para ensinar?
Imagine duas crianças de oito anos.
A primeira possui razoável equilíbrio, compreende orientações, consegue impulsionar o skateboard, mas demonstra receio quando o movimento ganha velocidade.
A segunda apresenta grande disposição, sobe em qualquer obstáculo, arrisca movimentos sem hesitar, mas ainda não consegue controlar adequadamente a velocidade ou realizar uma parada segura.
Mesma idade. Mesmo equipamento. Mesma pista.
A mesma aula?
Se a resposta for automaticamente afirmativa, alguma coisa importante escapou da formação.
A primeira criança precisa construir confiança sem ser empurrada além de suas possibilidades atuais. A segunda precisa desenvolver percepção de risco e controle antes de ampliar seus desafios.
Ambas precisam aprender. Mas não necessariamente a mesma coisa, do mesmo modo, no mesmo momento.
Igualdade de oportunidade não significa uniformidade de intervenção.
Um instrutor preparado chega com objetivos, conteúdos, atividades, recursos e critérios de avaliação.
Deve chegar.
Improvisar permanentemente não é demonstração de liberdade pedagógica. É frequentemente ausência de preparação.
Mas planejamento não é sentença.
É uma proposta de intervenção construída a partir das informações disponíveis, sujeita a ajustes diante daquilo que efetivamente acontece.
O aluno chega cansado. A pista está diferente. O equipamento apresenta problemas. O exercício escolhido revelou-se simples demais, complexo demais ou inadequado para aquele momento.
O que faz o instrutor?
Insiste porque estava escrito?
Muda porque perdeu a paciência?
Ou reavalia, interpreta e reorganiza?
Eis uma das primeiras manifestações da competência pedagógica: saber modificar os meios sem abandonar a responsabilidade pelos objetivos.
A boa aula não é aquela em que o instrutor conseguiu executar integralmente seu planejamento.
É aquela em que suas decisões produziram experiências de aprendizagem apropriadas, significativas e seguras.
A nossa série assumiu um compromisso: cada problema apresentado deverá, sempre que possível, produzir uma ferramenta.
Começaremos com um pequeno instrumento de observação e reflexão, que pode acompanhar instrutores iniciantes e experientes.
1. QUEM ESTÁ DIANTE DE MIM?
Não basta conhecer nome e idade. Importa compreender experiências anteriores, repertório motor, interesses, necessidades individuais e condições relevantes para a participação segura.
Observar sem rotular. Perguntar sem invadir. Conhecer sem presumir.
2. POR QUE ESSA PESSOA ESTÁ AQUI?
Quer aprender skateboard? Fazer amigos? Superar um medo? Brincar? Competir? Foi trazida pelos pais?
O desejo da família merece ser ouvido. O do aluno não pode ser ignorado.
3. O QUE ELA JÁ CONSEGUE FAZER?
Não apenas quais manobras executa, mas como se equilibra, compreende orientações, controla movimentos, percebe o espaço e responde aos desafios.
Não confunda coragem com competência, nem dificuldade com incapacidade.
4. O QUE ESTÁ IMPEDINDO SEU PROGRESSO?
Falta de repertório? Medo? Exigência incompatível com o estágio de aprendizagem? Instruções confusas? Equipamento inadequado? Condições ambientais?
Antes de atribuir o problema ao aluno, examine a própria intervenção.
5. O QUE É APROPRIADO ENSINAR HOJE?
Uma nova manobra? Um fundamento anterior? Uma estratégia de controle? Uma experiência lúdica? Uma atitude de segurança? Uma forma diferente de resolver um problema?
Ensinar também significa reconhecer o momento de não avançar.
6. COMO SABEREI SE A AULA FUNCIONOU?
Houve alguma aprendizagem observável?
O aluno compreendeu melhor seu movimento? Ampliou sua autonomia? Demonstrou maior controle? Aprendeu a reconhecer um risco? Conseguiu fazer algo que antes não conseguia?
Ou apenas repetiu movimentos até acabar o horário?
A avaliação começa quando sabemos o que pretendíamos desenvolver e conseguimos observar o que realmente aconteceu.
Existe um equívoco recorrente na iniciação esportiva: medir a competência do instrutor pelo número de exercícios realizados ou de manobras conquistadas.
Quantos ollies? Quantos drop-ins? Quantos obstáculos?
Essas conquistas podem ser importantes. Não são, isoladamente, medidas suficientes de formação.
Uma criança que aprende a reconhecer seus limites pode ter realizado uma aprendizagem tão necessária quanto outra que concluiu uma manobra.
Um adolescente que compreende por que precisa reorganizar uma sequência desenvolve capacidades que ultrapassam aquela execução.
O aluno que aprende a decidir quando tentar, interromper, descansar, pedir ajuda ou modificar uma estratégia está adquirindo algo precioso.
Autonomia.
E autonomia não nasce do abandono.
Nasce de experiências progressivas em que orientação, experimentação, responsabilidade e liberdade encontram proporções adequadas.
O instrutor não deve fazer do aluno um dependente de suas ordens, mas alguém progressivamente capaz de tomar boas decisões.
Experimente um procedimento simples.
Ao terminar sua próxima aula, reserve alguns instantes para registrar:
ANTES: O que identifiquei no aluno e o que pretendia desenvolver?
DURANTE: O que realmente aconteceu e quais decisões precisei modificar?
DEPOIS: Que evidência de aprendizagem observei e o que deverá orientar o próximo encontro?
Três registros breves.
Não são uma burocracia. São matéria-prima para uma prática reflexiva.
Com o tempo, essas observações permitem identificar recorrências, rever estratégias, comparar respostas e aperfeiçoar intervenções.
É uma maneira de começar a transformar experiência em conhecimento organizado.
A memória esquece. O registro permite revisitar.
E a experiência, quando examinada criticamente, pode se tornar formação continuada.
Nenhum curso consegue antecipar todas as crianças, famílias, pistas, circunstâncias e conflitos que um instrutor encontrará.
Nem deveria prometer isso.
A capacitação oferece fundamentos, instrumentos, experiências e referências. Sua aplicação exige julgamento, atualização e reconhecimento dos próprios limites.
Há situações que exigem orientação de profissionais mais experientes. Outras demandam conhecimentos especializados, protocolos institucionais, diálogo com responsáveis ou encaminhamento a profissionais habilitados.
Reconhecer essas fronteiras não diminui o instrutor.
Protege o aluno e qualifica o trabalho.
A formação continuada não é reparação de uma formação fracassada. É exigência de uma atividade cujo objeto de trabalho são pessoas em permanente transformação.
Por isso, receber um certificado não significa ter chegado ao fim de um caminho.
Significa ter assumido uma responsabilidade que precisa ser demonstrada diariamente.
Existe uma fotografia muito conhecida nos cursos de formação: uma turma reunida, sorridente, exibindo seus certificados.
É uma bela fotografia.
Representa esforço, convivência, dedicação e conquista.
Mas a imagem mais importante ainda não foi produzida.
Ela acontecerá quando um daqueles instrutores estiver diante de um aluno e souber reconhecer uma necessidade que não estava prevista no planejamento.
Quando conseguir acolher um medo sem ridicularizá-lo.
Quando oferecer desafios sem fabricar imprudência.
Quando compreender que demonstrar habilidade não basta para promover aprendizagem.
Quando perceber que a conquista não precisa ser espetacular para ser extraordinária.
E quando tiver humildade para reconhecer que também precisa aprender.
A partir de agora, quem recebeu o certificado foi você.
Mas a aula pertence ao aluno.
Eis a primeira lição depois do curso.
Para utilizar antes, durante e depois da próxima aula:
Quem é meu aluno?
O que ele deseja?
O que já consegue fazer?
O que dificulta seu progresso?
O que é apropriado desenvolver agora?
Como verificarei sua aprendizagem?
Registro reflexivo: o que observei, o que modifiquei e o que aprendi ensinando?
Conhecer o skateboard é requisito. Conhecer o aluno é responsabilidade. Saber relacionar ambos é competência pedagógica.
CENTRAL DO SKATE
Cultura Skateboard, Educação e Formação Esportiva
Série editorial: Desafios da Vida de Instrutor
Matéria: AG5 — Agência de Conteúdo / Cinco Continentes Editora
Editor-chefe: Frederico Manica
Organização editorial: AG5 — Agência de Conteúdo
Editora: Cinco Continentes Editora LTDA.
Publicação: Central do Skate
Categoria: Educação, formação profissional e pedagogia do skateboard.
Caráter editorial: Artigo de reflexão e orientação pedagógica, acompanhado de ferramenta prática destinada a instrutores de skateboard.
Linha editorial: Cultura Skateboard, educação, formação esportiva, desenvolvimento humano e responsabilidade profissional.
Veículo: www.centraldoskate.com
© 2026 Central do Skate — AG5 — Cinco Continentes Editora. Todos os direitos reservados. Reprodução mediante autorização.
DESAFIOS DA VIDA DE INSTRUTOR é uma série editorial da Central do Skate dedicada à formação, à prática pedagógica e às responsabilidades de quem ensina skateboard.