Skate como semi-vôo: infância, gravidade, arte e identidade. Do brincar livre ao peso do grupo, das tribos e do ego. No fim, o skate não se corrompe: quem se complica é o homem.
Uma experiência de semi-vôo sobre uma tábua: a sensação de flertar com a ausência de gravidade — e de negociar, no corpo, todas as formas de atrito entre o ser e o ambiente.
A aventura que é viver: busca por direção e sentido; busca por explicações.
Desde a invenção da escrita, muita gente fabrica narrativas e as maquilha com firulas egocêntricas. Tenta dar realeza ao que é simples: desfrutar, sem entraves. E, no meio disso, confunde vida com disputa por privilégio — conforto, bem-estar, reputação, fama, glória — sobre algo tão ecumênico quanto a água e o céu.
A tal liberdade de ir e vir: acelerar e parar bruscamente; desafiar a si mesmo; dividir o tempo com o tempo.
A evolução natural skateboard.
Dos 0 aos 4–6 anos, o skate é rodinha, é brinquedo, é boneco de pano. O shape vira o corpo do herói das brincadeiras. É a primeira infância: sobe e desce com as mãos; entra e sai do jogo com outros brinquedos. Aqui está a raiz da alfabetização do corpo: engatinhar, levantar, cair, rolar — a relação íntima com a gravidade.
Nessa fase não existe “por amor”: tudo é amor e amar. E isso requer cuidado e atenção para proteger o amar. Performance, drop, “estilo”, “sugestão”: tudo isso é transversal. O motor real é a motricidade — desbravar espaço-tempo. É aprender a gostar de ocupar espaço no espaço e dividir o tempo com o tempo. Não avilte esse processo com vaidade adulta travestida de ideias de formação e normas.
Dos 4–7 anos, o espaço ganha contornos. Aclive vira rampa. Rampas são montanhas; curvas viram destinos. O corpo aprende a correr como se fosse um único movimento feito de centenas de movimentos cadenciados. O deslizar começa a virar vontade.
O skate é meio. A relação com o todo — aquilo que diferencia o ser do ambiente — é o corpo da relação. Cada criança elege sua condição: mais velocidade; gestuais mais precisos; desafiar a gravidade; “levitar”; comunicar intenção ao mundo por expressão.
O mundo vira tela. O skate vira tinta, pincel, caneta, lata de spray. A frequência de traços e escolhas de brincar começa a dar contorno ao estilo. Nasce o artista. E, por volta dos 7 anos, coisas relevantes que compõem a genialidade humana começam a aparecer — não por milagre, mas por constância, curiosidade e presença.
A partir dos 7–8 anos, brincar vira coisa séria. A brincadeira vira mosaico: ora com regras, ora sem; ora solitária, ora em grupo; às vezes busca de encontro; às vezes pedido de atenção. O direito de brincar fica tão sério quanto o direito de respirar.
E, aqui, o skate começa a ocupar um lugar além da arte: vira roupa de vestir. Em alguns, total look. Em outros, casaco de dias frios. E há quem use como pose — como se, nos anos 70, fumasse só para ter o que fazer com as mãos e parecer “alguma coisa”.
Até os 14–15, a experiência skateboard muitas vezes se mistura com o caráter sendo moldado pela fricção com as aparências alheias.
Jovens. Muitos se mostram para os adultos como “únicos”, sendo iguais ao grupo que escolheram para se validar. Poucos conseguem sustentar personalidade sem precisar do bando, da tribo, da crew — não por superioridade moral, mas por autonomia do Ser, por autenticidade. Com naturalidade. É justamente isso, a naturalidade, que causa incômodo nos cardumes de cópias e imitações.
Há uma frase comumente atribuída a José Saramago que diz que “o heroico no ser humano é não pertencer a um rebanho”. Esse é o homem que É, onde existe. E essa é a encruzilhada que separa o Skatista do rótulo de “skatistas”.
O Skatista é o Ser sobre a sua própria experiência de deslizar enquanto tudo rasteja ao seu redor. Isso e apenas isso. E ele pouco ou nada vê nessa sua brevíssima existência. Como ali esteve e foi no tempo que passou, é o que importaria para qualquer um que ousasse tentar descrever um pintor, com sua tela, com seu pincel, borrando sua realidade como prefere.
Profissionalismo, eventos, categorias, falas egocêntricas, narrativas de pretensos precursores: quase sempre tentam cunhar um auto-enaltecimento de geração, de suas pretensas raízes, de sua legitimidade, seu tempo e sua gangue. Salários, carreira, treinos e resultados são comportamentos do homem que usa o skate para seus objetivos pessoais — e não há certo, nem errado.
Julgar quem usa um carro em corridas de automobilismo, julgar quem usa o carro para fazer as compras no final de semana, julgar quem possui uma oficina para consertar carros, julgar quem possui uma fábrica de carros…
Julgam, julgam, julgam.
Confundem a coisa que são com o homem que desejariam ser.
O homem usa coisas porque precisa sobreviver — quando não está, simplesmente, desfrutando sua própria experiência de SER.
Isso não é a Cultura Skateboard, isso é a luta pela sobrevivência, é a percepção nua e crua, imortalizada por Milan Kundera, em “A Insustentável Leveza do Ser”, que recai sobre todos que nascem, crescem e que um dia morrerão. Essa é a Evolução Natural Skateboard. Naturalmente, feito por homens, uns mais artificiais, outros menos, com todas as suas idiossincrasias.
O skate, o nosso skate, não se corrompe: quem se complica é o homem.
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