Guto Jimenez reconhece a grandeza técnica do skate atual, mas denuncia a higienização da cultura, o esquecimento de quem construiu a cena e o avanço de oportunistas sobre um território que não nasceu para servir de vitrine a qualquer um.
Em texto contundente, Guto contrapõe a evolução técnica do skate ao esvaziamento de sua memória, à captura mercadológica e à tentativa de domesticar uma cultura que nasceu áspera, plural e indomável.
Entre a explosão técnica do skate e o risco de sua domesticação simbólica, um texto duro, necessário e desconfortável sobre memória, pertencimento e disputa pelo sentido da cultura skateboard.
Folclóricos. Velhos malucos. Pregos. Mercenários da cultura. Empresários da cultura. Pensadores e ativistas. Competidores devorados pela busca de performance.
Afinal, o tal “lifestyle” nunca foi uma peça única. Sempre foi um território povoado por muitos estereótipos e arquétipos.
Entre todos eles, estão os originários — justamente porque atravessaram, no tempo, tantos papéis, tantas funções e tantas provações. Quem não teve estofo, grandeza ou história para amá-los deveria ao menos ter dignidade para respeitá-los e lucidez para reconhecê-los, não como parte viva, mas como parte imortal da cena. Fora do Brasil, essa evidência já é melhor compreendida.
Mas há também os outros.
Os vampiros.
Os sanguessugas.
Os usurpadores.
E talvez seja justamente disso que este texto trate, no fundo: não apenas da evolução do skate, mas da disputa permanente entre quem o constrói, quem o vive, quem o honra — e quem apenas aparece para explorá-lo quando a casa já está de pé.
Pra começar, preciso ser bem honesto aqui: entre skatistas das primeiras gerações, nem os/as mais otimistas poderiam prever o nível do hype do skate na atualidade.
É claro que a gente imaginava o reconhecimento, a exposição e a grana que existem na cena do carrinho nos dias de hoje — esses dois últimos, claro, exclusivos a quem tem um rolé bem acima da média, a ponto de serem prós.
Particularmente, acho injusto que o conforto financeiro só tenha vindo pras galeras que vieram bem depois das minhas de origem; não aconteceu pra imensa maioria dos meus amigos e das minhas amigas de muito talento, mas uma hora aconteceu.
E digo mais: ainda bem que a grana veio pra esses caras e essas minas que estão proporcionando o maior nível técnico de toda a história, isso em TODAS as modalidades.
Acompanho todos os tipos de skate, seja nas ruas, skateparks, transições, ladeiras, no flat, de skatim, de long, no dancing e no surf-skate, e todas as formas de andar estão evoluindo muito rápido, a um ritmo assustador às vezes.
Skatistas me deixando de queixo caído em todos os lugares possíveis, taí uma parada que sempre dá gosto de ver!
Na real, a evolução infinita do skate é a melhor característica do cenário atual e, definitivamente, a única que depende do próprio carrinho em si.
Entendo muito bem a visão de quem tá competindo agora, seja onde e como for, nessa busca incessante pela alta performance, que parece ser a única coisa que interessa.
O foco desse pessoal precisa ser intenso mesmo, porque o/a skatista sabe que, em sua categoria, só tem gente que anda muito. Não se tem muito tempo pra dar uns rolés no relax; o objetivo é treinar mesmo, porque do outro lado tem um monte com a mesma concentração e o mesmo espírito.
Quando se compete nas modalidades olímpicas, então, é raridade quem não sonhe com aquele pote de ouro do outro lado do arco-íris, embora a probabilidade de chegar lá seja ridiculamente minúscula.
Dessa forma, não dá pra esperar que skatistas de competição da atualidade tenham o mesmo comportamento que teriam em décadas passadas, e vamos combinar que tem muito mais em jogo em suas carreiras atualmente do que antigamente.
Pode parecer triste, mas o “lifestyle” não paga os boletos, simples assim.
Sim, porque existem inúmeros estereótipos e arquétipos formados por aí. Todas as vezes que vejo uma imagem de “skatista” de boné virado, bermuda larga e tênis hi-top — ou de uma menina com quase o mesmo visual, mas com saia de fadinha — sendo usada por empresas pra vender qualquer coisa, isso em pleno 2026, vejo que esses forasteiros não entenderam muito bem o espírito da coisa.
Idealizaram uma imagem, leram uns 15 minutos sobre o assunto numa IA dessas daí, e pronto. Interesse zero em toda uma cultura que há por trás do fato de se subir num skate; o negócio é fazer uma associação direta com algo que já faz parte das vidas das pessoas de modo geral.
O lifestyle é muito, muito mais do que esse skate cheirando a Lysoform que tentam passar pro público em geral e que não reflete a realidade.
É tanto o lado dos competidores quanto dos velhos malucos, muitos dos quais não executam nem 10% daquilo que já foram capazes um dia, mas que não largam do skate de jeito nenhum.
Alguns deles ajudaram a construir tudo isso que tá por aí, sejam manobras, escolinhas, picos, eventos, mídias e tudo o que mais existe.
Geral sabe quem são os heróis olímpicos e tal, mas e os nomes de Alexandre Calmon, Alexandre Dota, Alexandre Gato, André Camarão, César Gyrão, Fábio Lampião, Fábio Bolota, George Rotatóri, Hélio Greco, Ilzeli Confessor, Juliano Lilica, Márcio Tanabe, Marcos Kabeça, Renatão D’Oliveira, Roberto Ho-ho, Sergio Negão e tantos e tantos outros?!
Se não fossem por eles e por mais inúmeros das primeiras gerações, pode acreditar: nada disso que você vê por aí seria possível.
O lifestyle é a elite e os pregos, todos juntos e misturados, sem terem de implorar a ninguém por pulseirinha em eventos.
Também é a tal “gente que faz”, tantos empresários quanto mercenários do skate e de sua cultura, cada um ao seu estilo.
A diferença entre ambos nem é tão complexa assim: é só ver quem tá no game apenas pela grana ou quem trabalha por algo palpável e permanente, isso em todos os setores.
O triste é quando o acesso a essa bufunfa fica tão afunilado que não sobra pra quem mais faz a cena girar, que são as marcas de skate e muitos de seus empreendedores originários de produção e mídia.
Algo tá muito errado quando o universo do skate movimenta bilhões em todo o planeta, mas quem produz os artigos necessários pra montar um carrinho ou a mídia pra divulgação passa por apertos financeiros...
A longo prazo, isso será um verdadeiro tiro de escopeta nos pés, pois não existe nenhuma atividade bem-sucedida nas áreas esportiva e de lazer cujos produtores não sejam especialistas no ramo.
(Abrindo parênteses meio longos aqui: a culpa não é das fabricantes de bebidas energéticas, dos bancos, das marcas de automóveis ou de quaisquer outras megaempresas que patrocinem skatistas e eventos.
Elas injetaram uma grana no cenário que as marcas de skate sequer sonhavam em possuir, o que dirá em poder investir na própria cena.
A associação das brands com o skate é imensamente mais valiosa do que o retorno financeiro que o carrinho dá pra elas, de forma direta ou indireta.
Elas compraram o acesso ao nosso espetáculo, que parece restrito a esse pessoal do camarote e não tem ingressos com preços que as marcas originárias possam pagar.
Triste assim.)
Encerrando o assunto lifestyle: esse estilo de vida nosso pode ser resumido com uma frase muito usada em contextos políticos e sociais, que diz “ninguém solta a mão de ninguém”.
Nós, skatistas, somos generosos por natureza porque a vida nos foi generosa demais em colocar o skate debaixo de nossos pés.
Por isso, nós vibramos com as manobras e rolés cabulosos dos outros como se fossem nossos e ajudamos quem tá carente com um abraço, um sanduba ou uma peça que não vai usar mais, o que for preciso.
Amamos e respeitamos os nossos iguais, independentemente de condição social, tom de pele, religião ou outras coisas que não importam, na verdade, porque o skate nos ensinou a sermos assim.
Bom, quem não aprendeu assim, então simplesmente não entendeu nada o tempo todo... só lamento.
Da mesma forma, abominamos os vampiros, os sanguessugas e os usurpadores, essa corja que sobrevoa a cena como abutres e age como tal na primeira oportunidade que tem.
Existe um bocado de testas sebosas se passando como mentes brilhantes por aí, então é bom sempre ficar de olhos bem abertos.
Parafraseando aquele axioma do Proudhon: todo aquele que tentar se apossar do skate com más intenções é o meu inimigo e será tratado como tal.
Essa minha atitude beligerante se justifica porque eu não acho nem um pouco certo esses haoles virem dar uma de “donos” de algo que eles não ajudaram nada a construir, mas do qual querem ser os primeiros da fila na hora de se beneficiarem.
O skate precisa ficar nas mãos dos skatistas e de seus verdadeiros aliados, sem margem pra esses aproveitadores se darem bem.
O meu receio com essa flexibilização generalizada do skate, que envolve principalmente a sua cultura, é que acabe gerando algo que a gente não consiga mais reconhecer.
A minha imaginação me leva à cena final do Planeta dos Macacos, um clássico da ficção científica produzido em 1968; nela, o astronauta vivido por Charlton Heston finalmente se dá conta de que aquele estranho planeta hostil, habitado por macacos que escravizavam os humanos, nada mais era do que a própria Terra alguns séculos adiante de seu próprio tempo.
É quando ele pronuncia a frase que ficou na história do cinema:
“então nós finalmente o fizemos”.
Tomara que isso nunca aconteça ao skate.
Texto: Guto Jimenez
Preparação editorial e publicação: AG5 - Agência de Conteúdo / Central do Skate
Categoria: opinião | memória | crítica cultural
Caráter do documento: testemunho crítico de alta relevância para o debate contemporâneo sobre identidade, pertencimento, continuidade histórica e integridade da Cultura Skateboard
Central do Skate — porque nenhuma cultura permanece íntegra quando perde a guarda de si mesma.
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