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Curso de Formação de Instrutores de Skate em Portão terá módulo sobre Compostura e Cultura Integrativa - com Marcus Machado

Marcus Machado

08/03/2026

Marcus Machado apresenta o módulo Compostura e Cultura Integrativa no Curso Intensivo de Formação de Instrutores de Skate, em Portão, destacando ética, responsabilidade, acolhimento e preparo para formar novas gerações com seriedade.

Compostura e Cultura Integrativa no Skate: formar instrutores é formar o futuro

Por Marcus Machado

O skate sempre teve algo de raro: ele é, ao mesmo tempo, liberdade e responsabilidade.

Há uma frase do Fredi Manica que sintetiza muito bem esse espírito:

“Se vocês estão achando que vieram aqui para dar risada, para brincar, para fazer piadas, para se divertir, vocês estão… certos.”

Ela parece brincadeira, mas carrega uma verdade central. O skate não é um campo de rigidez estéril. Ele é presença, entrega, movimento, espontaneidade. É uma prática que nos chama ao instante e nos devolve ao corpo, ao equilíbrio, à sensibilidade e ao convívio. Mais do que executar manobras sobre uma prancha com rodas, andar de skate é desenvolver uma maneira de estar no mundo.

Mas aqui está o ponto que muita gente ainda evita encarar: essa leveza não elimina a necessidade de compostura. Pelo contrário. Quanto mais o skate cresce, mais ele exige consciência, clareza de papéis, ética e responsabilidade de quem decide orientar outras pessoas dentro da Cultura Skateboard.

É justamente sobre isso que trabalharemos no Curso Presencial Intensivo de Formação de Instrutores de Skate, que acontecerá na Torman, em Portão.

O skate pede liberdade. A formação pede seriedade.

Durante muito tempo, várias funções dentro do skate foram desempenhadas de forma empírica. Pais, amigos, parceiros de sessão, donos de loja, organizadores, skatistas mais experientes, ativistas de pista e de rua foram assumindo, na prática, papéis fundamentais na formação de novas gerações.

Isso foi importante. Foi assim que muita coisa sobreviveu.

Mas o crescimento do skate, sua ampliação social, educacional, esportiva, terapêutica e cultural, exige agora um novo patamar de organização. Não basta gostar de skate. Não basta andar bem. Não basta ter boa intenção. Quem ensina, orienta, organiza, conduz ou representa o skate precisa compreender com mais precisão o papel que está exercendo.

Definir papéis para proteger a cultura

Um dos pontos centrais deste módulo é justamente ajudar a distinguir funções que muitas vezes se misturam de forma confusa.

O ativista é aquele que age em defesa do skate, de sua cultura, de seus espaços, de sua memória e de sua expansão social.

O instrutor é quem transmite conteúdos específicos, técnicas, fundamentos e processos de aprendizagem de forma objetiva e segura, conduzindo praticantes em seu desenvolvimento.

O professor, em sentido mais amplo, está comprometido com didática, pesquisa, métodos de construção do conhecimento, leitura das necessidades do aluno e aperfeiçoamento constante das formas de ensinar.

O treinador ou técnico já assume uma função ligada à preparação para competir, à estratégia, à estruturação emocional, técnica e tática do atleta e de seu processo.

Quando esses papéis não são claros, surgem os improvisos destrutivos, os conflitos de interesse, os vícios de conduta e a reprodução de práticas frágeis. Quando ficam claros, o skate se fortalece.

Compostura não é formalismo. É responsabilidade.

Muita gente confunde compostura com caretice. Não é.

Compostura, dentro da Cultura Skateboard, é saber se portar de forma coerente com a função que se exerce. É entender que liberdade não é licença para agir de qualquer modo. É perceber que ensinar skate não é apenas passar manobra, mas transmitir segurança, confiança, atitude saudável, autonomia, discernimento e exemplo.

A compostura aparece quando o competidor respeita o evento, os adversários, as regras e o privilégio de participar de uma estrutura construída com esforço coletivo.

Aparece quando a arbitragem se protege dos conflitos de interesse e atua com critério técnico.

Aparece quando técnicos estudam as especificidades de cada modalidade.

Aparece quando professores realmente pesquisam, ensinam, acompanham e desenvolvem.

Aparece quando instrutores registram processos, mensuram resultados, observam as necessidades individuais e conduzem suas aulas com responsabilidade.

Aparece também quando empresários, dirigentes e organizadores conseguem enxergar o skate para além do próprio interesse imediato, compreendendo que reputação, seriedade e idoneidade são pilares indispensáveis para a expansão sustentável da cultura.

E aparece, sobretudo, no skatista atento ao próximo, que prefere construir a destruir, propor em vez de apenas denunciar, fazer em vez de apenas reclamar, respeitando tanto quem compete quanto quem não compete, tanto quem busca performance quanto quem vive o skate de outras maneiras.

Cultura Integrativa: o que estamos defendendo

O skate não é uma única coisa. Esse é um dos seus maiores valores.

A Cultura Skateboard acolhe o artístico, o educativo, o terapêutico, o competitivo, o recreativo, o urbano, o utilitário e o existencial. Há quem busque performance. Há quem busque estilo. Há quem busque bem-estar, equilíbrio, expressão pessoal, socialização, reinvenção da rotina, saúde mental, fortalecimento físico ou pertencimento.

Há quem queira competir. Há quem não queira.

Há quem queira ensinar. Há quem queira apenas viver o skate em profundidade.

Há quem use o skate como centro da vida. Há quem o integre a outras práticas.

Um instrutor mal formado tende a reduzir esse universo. Tende a empurrar o aluno para seu gosto pessoal, sua modalidade favorita, seus vícios, seu grupo, sua estética, sua leitura limitada do que é skate.

Esse é um erro grave.

Formar instrutores de verdade exige criar condições para acolher a diversidade real da cultura, sem transformar o skate num corredor estreito onde só cabe um tipo de praticante.

Os riscos da esportivização sem crítica

O crescimento esportivo do skate trouxe conquistas inegáveis. Mas trouxe também riscos.

Quando a esportivização passa a ditar sozinha o valor das pessoas, o sentido da prática e os critérios de reconhecimento, parte essencial da Cultura Skateboard começa a ser comprimida. O skate perde amplitude, perde riqueza simbólica, perde capacidade integrativa e corre o risco de se tornar refém de métricas estreitas, modismos, interesses conjunturais e padrões excludentes.

Defender a cultura integrativa é lembrar que o skate não pode ser capturado por um único modelo de sucesso.

Ele precisa continuar sendo um campo de liberdade com responsabilidade, de diversidade com critério, de acolhimento com qualidade, de evolução com memória.

Ética, proteção cultural e valorização do skatista

Nenhuma cultura sobrevive de forma íntegra sem princípios de conduta.

Por isso, códigos de ética e parâmetros de atuação não são adereços burocráticos. Eles são instrumentos de proteção. Protegem a atividade, protegem os praticantes, protegem os processos, protegem a credibilidade dos projetos, protegem os aprendizes contra oportunistas e protegem o skate contra sua própria descaracterização.

Se queremos que mais pessoas possam viver do skate ou com o skate, direta ou indiretamente, então precisamos elevar o nível de responsabilidade de todos os envolvidos.

Isso inclui combater privilégios, impedir marginalizações internas, ampliar visibilidade, promover equidade, evitar a cristalização de estereótipos e manter vigilância crítica constante para que nenhum grupo seja apagado ou tratado como secundário.

Metodologia A: formação viva, crítica e em construção

Todos esses fundamentos foram considerados na construção dos programas de capacitação da Metodologia A.

Isso significa que os processos de ensino não foram pensados para privilegiar uma modalidade, um naipe, uma marca, uma estética ou um perfil dominante de praticante. O compromisso foi outro: criar um processo confiável, seguro, confortável e justo para todas as pessoas, respeitando suas individualidades, limitações, potencialidades e formas de se relacionar com o skate.

Esse cuidado é central.

Porque formar não é padronizar.

Formar é desenvolver.

Formar é abrir caminho.

Formar é explicar, sem complicar desnecessariamente.

Formar é criar autonomia sem destruir identidade.

E, acima de tudo, formar é entender que nenhum método sério pode se considerar pronto. Um método vivo permanece em revisão, em escuta, em construção e em diálogo com a realidade.

Um convite aos que querem ajudar a formar novas gerações

O que está em jogo aqui não é apenas um curso. É uma etapa decisiva na qualificação de quem deseja atuar com o skate de maneira séria, íntegra e transformadora.

Precisamos de instrutores melhores.

Precisamos de referências melhores.

Precisamos de gente capaz de acolher desde os nossos fraldinhas, crianças, adolescentes, adultos e os nossos old schools, do Master em diante, com responsabilidade, sensibilidade e entendimento real da amplitude da Cultura Skateboard.

Se queremos novas gerações mais preparadas, mais livres, mais conscientes e mais fortalecidas pelo skate, então precisamos investir com seriedade na formação de quem irá conduzi-las.

É isso que trabalharemos em Compostura e Cultura Integrativa no Curso Presencial Intensivo de Formação de Instrutores de Skate, na Torman, em Portão.

Fica o convite a todos os que entendem que o skate não é apenas prática.

É legado.

É responsabilidade.

É cultura viva.

E precisa ser transmitido à altura de sua grandeza.

Nos vemos em Portão.

Autor: Prof. Marcus Machado

Criador do Projeto Primeira Remada de Sapucaia do Sul/RS — Ativista da Cultura Skateboard desde os anos 80, tendo organizado seu primeiro evento em 1986. Também é um dos Gestores da Liga Gaúcha de Street Skate.
Docente do Colegiado ABC do Skate - Núcleo RS


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