Como ensinar crianças e adolescentes do esporte de base a lidar com doces, salgadinhos e outras tentações sem culpa, sem proibição absoluta e sem desorganizar treino, sono, alimentação e recuperação.
Ele aparece no bolso do avô, na mochila preparada às pressas, na saída da escola, no banco de trás do carro ou logo depois do treino.
Pode ser uma bala, um pirulito, um chiclete, um chocolate, um biscoito recheado, um refrigerante, um salgadinho de pacote ou aquela barra de cereal que aprendeu a parecer saudável sem necessariamente oferecer uma alimentação de boa qualidade.
Na formação dos nossos aprendizes de atletas, chamamos esses alimentos de "contrabando" quando entram fora da rotina e do planejamento combinados.
O termo não existe para criminalizar a comida, assustar crianças ou transformar pais em fiscais. Ele nasceu para resolver um problema cotidiano de clubes, escolas, agremiações esportivas, equipes de competição, projetos sociais e grupos de formação: como manter uma rotina coletiva quando cada família possui hábitos completamente diferentes?
O termo surgiu da experiência prática de professores e dirigentes responsáveis por grupos de crianças e adolescentes.
Em uma equipe, existem horários para acordar, viajar, treinar, competir, descansar e se alimentar. Não é possível que cada criança determine individualmente quando fará uma refeição, o que levará para uma viagem ou em qual momento substituirá o alimento previsto por uma guloseima.
Foi nesse ambiente que doces, salgadinhos, refrigerantes e outros produtos levados fora do planejamento começaram a ser chamados de contrabando: alimentos que entravam sem pertencer ao acordo coletivo, muitas vezes escondidos em mochilas ou distribuídos por familiares como presentes e mimos.
Com o passar dos anos, a expressão consolidou-se entre os professores do Colegiado de Docentes, Pesquisadores e Desenvolvedores do Método A.
Sua função é simples: distinguir aquilo que integra a rotina alimentar daquilo que chegou como uma exceção não planejada.
Uma bala isolada não destrói a formação de um atleta.
O problema aparece quando as exceções deixam de ser exceções.
Um doce depois da escola, um salgadinho antes do treino, um refrigerante durante a viagem, outro chocolate oferecido pelo avô e uma nova concessão no fim de semana formam uma sequência que nenhum adulto isoladamente percebe.
Cada pessoa acredita ter oferecido “apenas um”.
A criança, entretanto, recebeu todos.
Além de favorecerem o consumo excessivo de açúcar, sal e gorduras, os alimentos ultraprocessados frequentemente ocupam o lugar de frutas, água, leite, refeições e preparações culinárias mais adequadas. O Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda que alimentos in natura ou minimamente processados sejam a base da alimentação e que o consumo de ultraprocessados seja evitado.
Quase sempre o contrabando chega acompanhado de afeto.
Avós, tios, padrinhos, madrinhas e amigos querem obter um sorriso imediato. O gesto parece pequeno, carinhoso e inofensivo.
Mas o adulto que oferece o presente enxerga apenas aquele instante. Não acompanha necessariamente o treino, a recuperação, o sono, a próxima refeição ou a preparação para a competição.
O carinho não deve ser condenado. Precisa apenas aprender outras linguagens.
Uma fruta preparada com cuidado, uma garrafa de água, um lanche adequado, uma conversa, uma carona, a presença em uma competição ou o interesse verdadeiro pela rotina também são formas de afeto.
Quando todo carinho precisa chegar embrulhado em açúcar, não estamos apenas alimentando uma criança: estamos ensinando uma associação.
Para evitar tanto a permissividade diária quanto a proibição absoluta, o aprendiz de atleta escolhe um dia da semana para o contrabando.
Nesse dia, ele pode consumir com moderação alguma guloseima que não faça parte de sua rotina habitual.
Existem, porém, algumas condições:
não deve ser véspera de competição;
não deve coincidir com doença ou mal-estar;
não deve prejudicar a recuperação de uma lesão;
não deve substituir refeições importantes;
não significa autorização para exagerar;
bebidas energéticas não fazem parte do acordo.
Caso o aprendiz consuma o contrabando em outro dia, considera-se que a exceção daquela semana já foi utilizada.
Ele não está sendo castigado nem “perdendo uma recompensa”. Apenas antecipou a própria escolha.
O objetivo é ensinar que toda decisão possui consequência e que uma vontade atendida agora não desaparece da conta apenas porque surgiu outra vontade depois.
Crianças aprendem rapidamente a identificar brechas.
Diante dos avós, dos amigos ou de outros pais, podem perguntar:
— Posso hoje, pai?
— Só desta vez?
— Todo mundo está comendo.
— Mas ele pode!
A pergunta pública pode constranger os responsáveis e transformar um acordo anterior em negociação emocional.
Por isso, o dia do contrabando deve ser escolhido antes da tentação.
Quando o pedido surgir fora do combinado, não são necessários discursos, discussões ou justificativas intermináveis. A resposta pode ser simples:
— Hoje não é o dia combinado.
A regra não deve ser criada no calor do desejo, nem alterada porque existe uma plateia.
A criança esperta procura a brecha. O adulto responsável protege o acordo.
Pais, mães, tios, avós, colegas da escola, amigos do prédio, do condomínio ou do clube não são necessariamente atletas ou aprendizes de atletas.
Eles podem possuir outros hábitos, outros compromissos e até escolhas alimentares menos cuidadosas.
Não cabe obrigar todos ao redor a esconder o que comem, mudar completamente sua rotina ou construir uma fachada artificial para que o jovem jamais encontre uma tentação.
Os familiares também não precisam ser sacrificados para criar uma blindagem impossível.
A partir de aproximadamente oito anos, muitas crianças já conseguem compreender regras simples, antecipar consequências e reconhecer que pessoas diferentes assumem compromissos diferentes. Isso não representa uma idade universal e automática de maturidade; a orientação deve considerar o desenvolvimento de cada criança.
O princípio, entretanto, é importante: o aprendiz de atleta precisa começar a entender que seu compromisso não depende de todos fazerem o mesmo.
O amigo bebe refrigerante à vontade refrigerante.
O tio bebe uma térmica de café todas as manhãs.
O colega pode comer um salgadinho de pacote enquanto está brincando com outras crianças.
Isso não obriga o nosso aprendiz a repetir aquelas escolhas, nem se sentir "vítima" por não faze-las.
Disciplina não é viver em um mundo sem tentações. É aprender progressivamente a sustentar um compromisso dentro do mundo que existe.
Outro erro comum ocorre quando o adulto usa o próprio corpo como medida para a criança:
— Eu tomo café e durmo normalmente.
— Sempre comi doce e nunca tive problema.
— Um energético não faz nada.
— Na minha época ninguém controlava isso.
O pai, a mãe ou o tio podem não perceber imediatamente os efeitos de seus próprios hábitos. Também podem ter desenvolvido tolerância, possuir outra rotina ou simplesmente não estar submetidos ao mesmo processo de crescimento, treinamento e recuperação.
Crianças e adolescentes podem ser mais sensíveis à cafeína, que pode interferir no sono, provocar agitação e afetar atenção, humor e ansiedade. A Sociedade Brasileira de Pediatria alerta que bebidas energéticas não são apropriadas para jovens e que a ingestão de cafeína nessa faixa etária não oferece benefícios à saúde.
O hábito do adulto não deve ser utilizado como certificado de segurança para o jovem.
Quem já escolhe por si não pode usar a própria permissividade para sabotar quem ainda está aprendendo a escolher.
Aqui precisa existir uma fronteira clara.
O dia do contrabando pode admitir uma sobremesa, um chocolate ou outra guloseima em quantidade moderada. Ele não deve ser tratado como uma autorização geral para qualquer produto.
Bebidas energéticas não são simples refrigerantes. Podem conter quantidades elevadas de cafeína e outros estimulantes.
Por isso, não devem fazer parte do dia de exceção de crianças e adolescentes. A Sociedade Brasileira de Pediatria relaciona seu consumo a efeitos como insônia, ansiedade, alterações de humor e atenção, elevação da frequência cardíaca e outros riscos.
O mesmo cuidado deve existir com pré-treinos e suplementos estimulantes. Crianças e adolescentes não precisam de atalhos químicos para produzir disposição.
Sono, alimentação, hidratação, treinamento adequado e recuperação continuam sendo a base.
Ensinar autonomia não é abandonar a criança às próprias preferências.
Permitir que ela escolha exclusivamente aquilo de que gosta, recuse qualquer refeição e determine sozinha o que e quando comer pode parecer respeito à individualidade. Muitas vezes, porém, representa apenas a retirada precoce da responsabilidade dos adultos.
A criança deve ser ouvida, participar das decisões e aprender a reconhecer fome, saciedade, prazer e necessidade.
Mas ainda precisa de orientação.
Autonomia não significa ausência de limites. Significa adquirir, pouco a pouco, competência para compreender os limites e futuramente administrá-los.
A criança não aprende a escolher quando todas as suas vontades são obedecidas. Aprende apenas que desejar é suficiente.
No esporte de base, costuma-se observar a técnica, a força, o equilíbrio, a coragem e o desempenho competitivo.
Mas a formação do atleta também acontece fora da pista.
Ela aparece na hora de dormir, na hidratação, no cuidado com o corpo, na recuperação e na capacidade de cumprir acordos mesmo quando ninguém está fiscalizando.
A Organização Mundial da Saúde recomenda reduzir o consumo de açúcares livres e destaca que uma alimentação variada, com menos açúcares, sal e gorduras prejudiciais, é fundamental para a saúde.
Isso não significa que a alimentação substitua médicos, diagnósticos ou tratamentos.
A frase “comer bem mantém qualquer pessoa longe dos remédios” é sedutora, mas imprecisa. Pessoas que se alimentam adequadamente também podem adoecer e precisar de tratamento.
A formulação responsável é outra: uma boa alimentação é uma das primeiras formas de cuidado, prevenção e proteção da saúde.
Não adianta cobrar disciplina da criança se cada adulto oferece uma regra diferente.
Pais, responsáveis, avós, padrinhos, treinadores e professores precisam conhecer o acordo. Isso não significa controlar cada refeição familiar nem impor um cardápio único a todas as casas.
Significa evitar algumas sabotagens previsíveis:
enviar guloseimas escondidas;
oferecer alimentos fora de hora;
prometer doces como recompensa;
desautorizar os pais diante da criança;
dizer que o cuidado é “exagero”;
usar a própria infância como justificativa;
permitir que o jovem substitua refeições por aquilo de que mais gosta.
O adulto pode discordar do método. O que não deve fazer é disputar a lealdade da criança por meio de permissões.
Algumas escolas, clubes e eventos esportivos ainda utilizam doces, refrigerantes e produtos ultraprocessados como recompensa, lanche automático ou principal alternativa disponível.
Isso torna o trabalho mais difícil, mas não impossível.
A família pode explicar o acordo à escola, enviar uma opção adequada e orientar a criança sobre como agir quando receber algo fora do planejamento.
Nem sempre será necessário proibir, devolver ou produzir constrangimento. Dependendo da situação, o alimento poderá ser guardado para o dia combinado.
O importante é impedir que cada oferta inesperada se transforme automaticamente em consumo imediato.
A publicidade e a ampla disponibilidade de ultraprocessados já dificultam a formação de hábitos saudáveis. Portanto, não é razoável esperar que a criança enfrente sozinha todos esses estímulos.
O conceito perde sua função quando produz:
medo da comida;
vergonha por ter comido;
vigilância obsessiva;
humilhação pública;
comparação entre corpos;
compensação por meio de jejum;
treinamento usado como punição;
classificação moral entre alimentos “bons” e pessoas “ruins”.
Um jovem que descumpriu o trato não precisa ser ridicularizado nem obrigado a “queimar calorias”.
Basta reconhecer a escolha e aplicar a consequência combinada: a exceção semanal já foi utilizada.
No ciclo seguinte, o acordo recomeça.
O objetivo é formar consciência, não fabricar culpa.
O acordo pode ser resumido em sete passos:
1. Escolher um dia.
O aprendiz define previamente o seu dia do contrabando.
2. Definir o que entra.
Doces e guloseimas moderadas podem ser admitidos; energéticos e produtos estimulantes ficam fora.
3. Proteger datas importantes.
O dia pode ser alterado quando coincidir com competição, doença, lesão ou recuperação.
4. Não substituir refeições.
Contrabando não ocupa o lugar do almoço, do jantar ou do lanche planejado.
5. Evitar negociações públicas.
“Hoje não é o dia combinado” é uma resposta suficiente.
6. Considerar utilizada a exceção antecipada.
Caso o jovem consuma em outro dia, não haverá uma segunda exceção naquela semana.
7. Recomeçar sem culpa.
Na semana seguinte, um novo ciclo se inicia.
O jovem atleta não deve ser criado em uma redoma.
O mundo possui festas, aniversários, viagens, vitrines, publicidade, amigos com outros hábitos, parentes permissivos e alimentos feitos para serem difíceis de recusar.
A função dos adultos não é eliminar o mundo.
É preparar o jovem para atravessá-lo.
A disciplina verdadeira aparece quando ele compreende que pode desejar alguma coisa sem precisar consumi-la imediatamente; que os outros podem escolher diferente; e que um compromisso não deixa de existir apenas porque ninguém está olhando.
O contrabando, portanto, não é apenas o chocolate escondido na mochila.
É uma pequena ferramenta para ensinar uma ideia muito maior: o corpo não deve ser governado por cada vontade que passa.
Antes de formar campeões, precisamos formar jovens capazes de cuidar de si.
Porque o doce dura alguns minutos.
O hábito pode acompanhar o atleta por toda a vida.
Central do Skate
Cultura Skateboard, Educação e Formação Esportiva
Matéria: Contrabando: alimentação, disciplina e autonomia na formação do jovem atleta
Editoria: Formação Esportiva | Educação Alimentar | Cultura Skateboard | Infância e Adolescência
Pesquisa, organização editorial e redação: AG5 — Agência de Conteúdo
Tema: Alimentação, rotina, autonomia, responsabilidade familiar e formação de hábitos
Abordagem: Cultura Integrativa, desenvolvimento integral do aprendiz de atleta e responsabilidade dos adultos