Blunt virou dialeto do skate nos anos 90 com o shape “popsicle”. O artigo explica os rudimentos do encaixe no coping, discute o nose grab como recurso, apresenta o BluntLab (2005) e culmina com o Ghost Blunt, o Blunt Fantasma
Há um ponto de virada no skate em que não foi só o corpo que evoluiu: foi o vocabulário. Final dos anos 80, começo dos 90: o shape deixa de ser “tábua com concave” e vira instrumento de precisão — e isso muda tudo.
O blunt clássico não é, tecnicamente, “usar o lado oposto do shape para estabilizar o ollie e ganhar amplitude”. Isso descreve uma sensação (uma imagem poética), mas não descreve o mecanismo — não descreve os rudimentos. O mecanismo do blunt é “lockar” o tail (ou o nose) no coping/ledge, com o truck do mesmo lado passando por cima, criando uma posição de equilíbrio/pressão que permite stall, slide e variações.
O “blunt nose grab”, alguns tratam como mais um tipo de blunt, outros costumam classificar como um clássico “desvio oportunista”: uma “roubadinha” quando o skatista não consegue executar a saída apenas com o movimento dos membros inferiores e precisa usar a mão para “desencaixar”.
Como recurso pedagógico (progressão): a mão ajuda o skatista a entender timing/posição antes de dominar a saída só com as pernas.
Como atalho de execução (quando vira muleta): se o objetivo é excelência em blunt “limpo”, a mão pode mascarar falta de domínio da saída.
Chamar de “roubadinha”, usar o nose grab para ajudar na saída, do ponto de vista dos skatistas "old school" (em alguns contextos, grab é estilo/linha), soa ofensivo em vários aspectos. Um grande erro seria defender qualquer ideia que proíba o recurso — o skate é livre, e continuará sendo. Dominar a saída do blunt sem usar o grab é uma progressão: um recurso adicional, tecnicamente mais alto na escala de evolutividade, e o skatista decide usar — como pode e como quer — os recursos que domina.
No BluntLab da ABC do Skate Brasil, grab pode existir como recurso — mas “excelência” é sair sem depender dele. O skatista escolhe.
Quando o double kicktail (o “popsicle”) se consolida ali por volta do fim dos 80/início dos 90, ele não só “revive a indústria”: ele padroniza uma plataforma que favorece switch, nollie, noseslide/noseblunt, linhas mais técnicas e combinações que antes eram muito mais limitadas pelo shape.
No Brasil, emplacou o termo “double decks”, mas as fontes históricas chamam de double kick / popsicle. Explicando o “double deck” — ou melhor, o double kick (o “popsicle”) — trata-se de um shape com nose e tail cada vez mais equivalentes; em alguns casos, nose e tail idênticos, variando conforme modelo e preferência pessoal do skatista.
O blunt vira obsessão por um motivo simples: ele é um ponto de encaixe. É a manobra que transforma borda/coping em trilho de linguagem: você trava, estabiliza, controla — e daí você combina.
O Blunt: tail e roda/truck de trás “por cima” do obstáculo (borda/coping), com o skate posicionado de modo que o resto do skate passa do outro lado, encaixado pelo truck anterior — por isso a estética de “travado e agressivo”.
A família cresce: blunt to nose stall, blunt to disaster, bs e fs blunt, noseblunt, blunt flip-out blunt flip-in… e por aí vai.
A explosão vira “subgrupo” com dezenas de ramificações — uma enorme quantidade de variações possíveis em bordas com e sem coping.
Se existe um “DNA histórico” no blunt moderno (especialmente noseblunt/nosebluntslide), um nome aparece recorrentemente no registro cultural: Mark Gonzales. Ele próprio comenta a inspiração/origem do noseblunt e do noseblunt slide em material editorial. A partir dessa linhagem, os anos 90 fazem o que fazem: multiplicam.
Em 2005, a ABC do Skate Brasil estrutura o BluntLab como um laboratório de imersão focado nessa família de manobras (listado entre os “laboratórios de excelência” da formação).
São mais de 100 variações de blunts, de todos os tipos, para todos os lados. O skate, que consolidou a cultura dos aéreos, dos plants e dos ollies, reinventa mais um subgrupo de movimentos expressivos, técnicos, arrojados — e satisfatórios de executar e assistir.
Primeiros movimentos; posição dos braços desde a preparação; posicionamento intuitivo dos centros de gravidade; e, depois, posicionamento controlado dos centros de gravidade.
Blunt stall / blunt to rock -> to rock to fakie, como “alfabetização” do encaixe.
Bs e FS Blunt, bluntslides, revert out e variações.
Saídas com flip, saídas para lipslide, conexões em linhas complexas e varando gaps longos, controle extremo de risco e precisão — e a diversão do GHOST BLUNT.
Agora sim: Ghost Blunts como emblema de excelência.
A ideia é simples (e por isso é icônica): o skate fica encaixado sozinho na borda — como se estivesse ali “um fantasma” — e o skatista salta e, no mesmo movimento, entra e executa o blunt. Não é “truque visual”; é teste de:
posicionamento perfeito do board
tempo de entrada
confiança no encaixe
controle fino do corpo na borda
Ghost Blunt não é só mais uma variação — é um selo. Um “portfólio” de blunts culmina nele porque ele cobra todas as valências construídas.
No vídeo, Tuco Manica executa o Ghost Blunt como parte do BluntLab, atravessando do básico ao ápice.
O blunt se tornou um dialeto do nosso idioma skateboard, que o advento do shape mais “simétrico” ajudou a forjar. E BluntLab é uma imersão técnica e cultural, como a cultura skateboard deve ser.
Este texto é destinado à publicação no blog da Central do Skate e integra a documentação pedagógica da ABC do Skate Brasil.
BluntLab (2005) — Laboratório de Imersão de Blunts (estrutura de formação).
Vídeo: Tuco Manica @tucomanica — Ghost Blunt (link).
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