Os desafios e a estrada infinita da formação continuada do treinador
Por que, em 2026, ser técnico virou uma missão em terreno hostil — e como não colapsar no caminho
O Brasil possui treinadores e técnicos talentosos. O problema é que, em 2026, talento sozinho não sustenta carreira. O ofício ficou mais difícil porque o campo mudou: mudou o aluno, mudou a família, mudou a escola, mudou o mercado de “soluções”, mudou a competição por autoridade.
Este texto existe para uma coisa: recolocar o Treinador e o Técnico no centro do que importa — formação real. Sem show, sem frase pronta, sem autoengano.
O ocaso do mestre do dia a dia
Décadas atrás, em muitas modalidades, treinador era presença contínua: referência diária, alguém que ensinava técnica e também ensinava conduta. Hoje, a rotina do atleta está ocupada por um ecossistema que compete com qualquer processo longo: telas, recortes, promessas de “virada rápida”, comparações, validação instantânea.
Você ainda é necessário. Só que agora você está atuando num terreno hostil.
Dilema central dos tempos atuais
O treinador e o técnico em 2026 não enfrentam “apenas” atletas. Enfrentam um ecossistema inteiro que mudou como as pessoas aprendem, confiam e persistem. Três tempestades se sobrepõem.
1) Tempestade informacional
Pais e atletas chegam “bombados” de certezas: recortes de redes, referências midiáticas, antes-e-depois, “especialistas” de internet. Isso corrói o processo porque cria uma cultura onde opinião parece evidência. A OMS/WHO descreve desinformação como risco para decisões e segurança pública.
Fonte: https://www.who.int/news-room/questions-and-answers/item/disinformation-and-public-health
2) Tempestade neural
O problema não é “a internet”. É o design que condiciona comportamento: rolagem infinita, autoplay, notificações, recomendação agressiva. Isso treina um hábito mental incompatível com treino: impaciência com repetição, aversão à espera, necessidade de novidade.
Se você não perceber isso, vai interpretar como “falta de vontade” aquilo que é, muitas vezes, funcionamento condicionado.
3) Tempestade institucional
A escola, que deveria ser aliada do corpo e da disciplina, também está sob pressão e desgaste. A OCDE, no TALIS 2024, discute bem-estar docente, demandas e estresse no trabalho. Se o professor está esmagado, o ecossistema formativo inteiro sente.
Fonte: https://www.oecd.org/en/publications/results-from-talis-2024_90df6235-en/full-report.html
Conclusão dura: ou o treinador/técnico vira um profissional em formação contínua (de verdade), ou vira peça decorativa do caos — alguém que “está lá”, mas já não governa o processo.
Onde o corpo é atacado sob disfarce de adaptação a esses tempos digitais
Não precisa existir uma lei dizendo “acabou a Educação Física” para que o corpo seja empurrado para fora da escola. O ataque mais eficaz é silencioso: reduz carga, aperta espaço, empobrece a prática, terceiriza, transforma em “recreação” e mantém o componente só como checklist — sem peso pedagógico real.
E existe um motor objetivo por trás disso: custo. Para muitos mantenedores e empresários, Educação Física é cara. Quadra, pátio, manutenção, seguro, materiais e professor custam. Quando a escola entra em lógica de “otimização”, o corpo vira centro de custo — e centro de custo, em planilha, é sempre candidato a compressão.
Isso não é paranoia. Houve tentativa formal recente: a MPV 746/2016 (reforma do ensino médio) registrou, na sua tramitação, intenção de restringir a obrigatoriedade de Arte e Educação Física ao fundamental, tornando-as facultativas no ensino médio no texto original — e recuos aconteceram por disputa e resistência. A leitura estratégica é simples: quando a vigilância afrouxa, o corpo perde espaço (por lei ou por erosão lenta).
Some um sinal estrutural da década: a normalização de “menos presencial, menos espaço, menos prática”, visível na expansão do EaD no ensino superior (dados do INEP). Isso não prova “conspiração anti-corpo”. Prova um incentivo estrutural de redução de custo e presencialidade — e, se ninguém empurrar na direção contrária, a formação corporal vira ruído pedagógico.
A frase correta, sem exagero e sem ingenuidade, é:
não é que “tiraram a Educação Física”; é que tentam, repetidamente, reduzir o peso pedagógico do corpo.
A nova guerra: quando a plateia acha que sabe mais que o ofício
Você sempre foi cobrado por resultado. Agora você é cobrado por narrativa.
O atleta chega com um vídeo de 30 segundos e uma conclusão fechada. O pai chega com um podcast e um “método”. A mãe chega com o caso de sucesso do influencer. Isso cria um ambiente em que o processo é tratado como “lento demais”, e o espetáculo vira a referência.
O inimigo principal não é falta de informação: é ilusão de compreensão. E as redes recompensam exatamente isso: o simples, o chamativo, o imediato. A UNESCO tem proposto diretrizes para governança de plataformas porque o ecossistema digital virou infraestrutura social de ruído e desinformação.
A praga paralela: especialistas de fim de semana e a guerra pela autoridade
Aqui você precisa ser maduro: o problema não é “coaching existir”. O problema é a assimetria de responsabilidade.
Se você tenta combater isso só com indignação, você perde. Porque indignação não cria autoridade. Critério cria.
Há debate institucional no Brasil sobre coaching (regulação, criminalização, limites) — sinal de que o tema é relevante e nebuloso.
Fonte: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2019/05/23/criminalizacao-ou-regulamentacao-do-coaching-esta-em-discussao-no-senado
A frase que organiza a realidade, sem melodrama:
você não disputa método; você disputa marketing.
Se você não aprender comunicação, você pode estar certo — e ainda assim perder a narrativa.
Devir do treinador e do técnico
“Devir” aqui não é pose filosófica. É diagnóstico: o ofício mudou e você precisa mudar junto, sem trair valores.
Devir Treinador/Técnico é o movimento inevitável em direção a quatro funções:
1) Guardião do ambiente
Você cria um território com regra, atenção, segurança e ética. Sem isso, o treino vira ruído.
2) Arquiteto de formação humana
Você forma disciplina, autocontrole, tolerância ao erro e responsabilidade. Técnica sem isso vira performance frágil.
3) Tradutor entre mundos
Você traduz ciência em prática; traduz processo para família viciada em atalho; traduz o “tempo do corpo” num mundo que idolatra o instantâneo.
4) Profissional em atualização contínua
Não existe “cheguei lá”. Existe “se eu parar, eu viro repetidor de tradição”.
Um bom referencial internacional para desenvolvimento de treinadores é o International Sport Coaching Framework (ICCE).
Fonte: https://icce.ws/wp-content/uploads/2023/01/ISCF_1_aug_2012.pdf
Regra de ouro do artigo: 2 horas semanais de leitura profunda
Aqui está o ponto mais prático — e mais moral, efetivo e cabal — deste texto.
Se você é treinador ou técnico e não sustenta um mínimo de estudo contínuo, você perde lastro. E sem lastro, você vira aquilo que diz combater: alguém que vive de opinião e performance, não de fundamento.
Após extensas discussões e validações internas, com a ajuda do Colegiado de Docentes da ABC do SKATE Brasil (respaldo técnico dos parâmetros apresentados nos trabalhos da AG5, diante da realidade dos educadores brasileiros) esse trabalho estabeleceu um parâmetro basilar: tempo mínimo de leitura semanal para Técnicos e Treinadores. Foi difícil chegar nesses números por motivos óbvios (rotina, deslocamento, trabalho, instabilidade), mas o mínimo, exígível, ficou no consenso sistematizado para fins de resultado efetivo, abaixo:
Tempo mínimo exigível
2 horas semanais de leitura aprofundada (livros, artigos e materiais indicados por especialistas confiáveis).
Não é para “virar acadêmico”. É para não virar improvisador.
Como encaixar, sem drama:
Sistemática semanal das 2h de leitura mínima:
Regra-mãe
2 horas por semana = 120 minutos.
Modelo A — “20 minutos por dia” (recomendado)
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Segunda: 20 min
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Terça: 20 min
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Quarta: 20 min
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Quinta: 20 min
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Sexta: 20 min
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Sábado: 20 min
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Domingo: livre (0 min)
Total: 120 min
Modelo B — “3 blocos de 40” (para agendas quebradas)
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Segunda: 40 min
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Quarta: 40 min
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Sexta: 40 min
Outros dias: livre
Total: 120 min
Modelo C — “2 blocos de 60” (para quem só consegue ‘sentar’)
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Terça: 60 min
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Quinta: 60 min
Outros dias: livre
Total: 120 min
Tática operacional aplicada para não virar “leitura fake”
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Evitar celular por perto. Coloque para despertar em 20min.
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Um material por bloco. Não misture tudo. Profundidade > variedade.
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3 linhas de registro ao final:
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“O que eu aprendi?”
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“O que muda no meu treino?”
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“Qual critério eu passo a usar?”
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Mapa de formação continuada
Sim, também precisamos de mapas! Sete áreas para serem visitadas, revisitadas ou desbravadas.
1) Ciência do treino
Carga, recuperação, sono, prevenção de lesão, retorno seguro, planejamento por idade e contexto.
2) Pedagogia real
Instrução curta e verificável; progressão por critérios; erro como ferramenta.
3) Psicologia aplicada com limite ético
Saber reconhecer sinais de ansiedade e sobrecarga; encaminhar quando necessário.
4) Comunicação com famílias e atletas
Contrato de expectativas; linguagem simples; critérios claros; combate à ilusão de compreensão.
5) Gestão do ambiente
Regra, rotina, cadência, proteção do treino contra interferência contínua.
6) Ética e responsabilidade
O que sei/o que não sei; rastreabilidade; responsabilidade por consequência.
7) Autoproteção do profissional
Limites, supervisão, comunidade de prática, rotina mínima de estudo.
Técnico e treinador: não é a mesma coisa
Alguns são técnicos do time (estratégia, direção do coletivo). Outros são treinadores do atleta (processo, base, progressão, correção). Muitos acumulam.
Mas a responsabilidade é a mesma: sustentar o processo.
Fecho pragmático para Técnicos e Treinadores
Se este artigo for útil, ele será útil por um motivo: ele recoloca treinador e técnico num lugar que a cultura de 2025 tenta arrancar — o lugar de fundamento.
Você pode continuar chamando a crise de “geração fraca”, “pais difíceis” e “internet”. Ou pode aceitar o que realmente define sua sobrevivência profissional:
E aqui vai o lembrete final, sem gentileza — porque o ofício exige isso:
sem o mínimo de 2 horas semanais de leitura profunda, você opera perto do mesmo charlatanismo que acusa nos influencers e mentores midiáticos.
Porque, no fim, charlatanismo não é só mentir — é falar com certeza onde não há fundamento.
Faça o mínimo. Proteja o ofício. E volte a ser aquilo que o Brasil mais precisa: gente que forma, não gente que performa.
Mini glossário
Treinador
Profissional que constrói o processo do atleta no tempo: base, progressão técnica, rotina, correção, segurança, hábitos. Trabalha o “como evoluir”.
Técnico
Profissional que dirige o coletivo e a estratégia: decisão, sistema, modelo de jogo/execução, gestão de grupo, critérios de convocação e função. Trabalha o “como competir” e “como organizar o time”.
Acúmulo de função
Quando a mesma pessoa é treinador e técnico. Em muitos contextos brasileiros isso é comum — e por isso exige ainda mais estudo e organização.
Formação continuada
Atualização permanente que altera decisões práticas. Não é “consumir conteúdo”; é estudar, filtrar, testar e incorporar critério.
Lastro
Base real que sustenta sua autoridade: evidência, método, experiência rastreável e coerência entre discurso e prática. Sem lastro, a fala vira performance.
2h semanais de leitura profunda (mínimo exigível)
Parâmetro operacional de sobrevivência do ofício: leitura concentrada de livros e materiais técnicos confiáveis, que gera ajuste de conduta e decisão. Abaixo disso, cresce o improviso.
Leitura profunda
Leitura sem multitarefa, com anotação e intenção de transformar prática. Diferente de “rolar feed” ou ver cortes motivacionais.
Ilusão de compreensão
Sensação de “entendi” criada por recortes, slogans e casos isolados, sem contexto, sem critério e sem repetição prática.
Erosão pedagógica do corpo
Quando a Educação Física permanece “no papel”, mas perde tempo, espaço, qualidade e centralidade: vira recreação, checklist ou terceirização barata.
Ecossistema de atalho
Mercado que premia promessa rápida: antes-e-depois, método milagroso, “hack”, narrativas de virada. Ele vende velocidade e cobra consistência.
Marketing vs ofício
Marketing: convence rápido. Ofício: forma devagar. O treinador de 2025 precisa dominar comunicação sem trair o processo.
Accountability (responsabilidade por consequência)
Responder pelo que prescreve: critérios claros, decisões justificáveis, revisão quando erra. É o oposto do “eu só dei uma dica”.
Governar o ambiente
Definir e sustentar regras e cadência do treino (atenção, rotina, conduta, segurança). Sem isso, o treino vira reunião social com bola/shape.
Peça decorativa do caos
Treinador/técnico que “está presente”, mas não regula nada: não define critérios, não protege processo, não corrige cultura — apenas ocupa o espaço.
Fontes e leituras complementares confiáveis
Técnico: responsável pela direção do coletivo (estratégia, decisões, gestão do time), podendo ou não acumular função de treinador.
Treinador: responsável pelo processo do atleta (base, progressão técnica, rotina, correção), podendo ou não ser o técnico do time.
Formação continuada: atualização permanente que altera prática e decisões; não é “consumo de conteúdo”.
Ilusão de compreensão: sensação de entender por recorte, sem critério e sem prática.
Erosão pedagógica do corpo: manutenção formal da Educação Física com perda real de carga, espaço, qualidade e centralidade.
Accountability: responsabilidade por consequência; responder pelo que prescreve e promete.
Devir do treinador/técnico: transformação inevitável do ofício para proteger processo em ambiente cultural adverso.
OMS/WHO — Desinformação e saúde pública: https://www.who.int/news-room/questions-and-answers/item/disinformation-and-public-health
UNESCO — Diretrizes de governança de plataformas digitais: https://www.unesco.org/en/internet-trust/guidelines
UNESCO — Documento completo: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000387339
OCDE — TALIS 2024 (relatório): https://www.oecd.org/en/publications/results-from-talis-2024_90df6235-en/full-report.html
Congresso Nacional — MPV 746/2016: https://www.congressonacional.leg.br/materias/medidas-provisorias/-/mpv/126992
Planalto — Texto da MPV 746/2016: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/mpv/mpv746.htm
INEP — Crescimento do EaD em uma década (Censo da Educação Superior): https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/censo-da-educacao-superior/ensino-a-distancia-cresce-474-em-uma-decada
Senado — Debate sobre regulamentação/criminalização do coaching: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2019/05/23/criminalizacao-ou-regulamentacao-do-coaching-esta-em-discussao-no-senado
ICCE — International Sport Coaching Framework (coach development): https://icce.ws/wp-content/uploads/2023/01/ISCF_1_aug_2012.pdf
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CRÉDITOS
Este material é parte integrante do Material de Apoio do Curso de Formação de Treinadores e Técnicos – Módulo III da ABC do Skate Brasil - Revisão 2026/01 rev.2 - Cinco Continentes Editora LTDA.
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